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1 João 2:12-17 - O Amor que Deus Odeia

01 de maio de 202613 min de leitura

1 João 2:12-17 - O Amor que Deus Odeia

12 Filhinhos, escrevo a vocês, porque os seus pecados são perdoados por causa do nome de Jesus. 13Pais, escrevo a vocês, porque conhecem aquele que existe desde o princípio. Jovens, escrevo a vocês, porque vocês têm vencido o Maligno. 14Filhinhos, escrevi a vocês, porque conhecem o Pai. Pais, escrevi a vocês, porque conhecem aquele que existe desde o princípio. Jovens, escrevi a vocês, porque são fortes, e a palavra de Deus permanece em vocês, e vocês já venceram o Maligno. 15Não amem o mundo nem as coisas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele. 16Porque tudo o que há no mundo — os desejos da carne, os desejos dos olhos e a soberba da vida — não procede do Pai, mas procede do mundo. 17Ora, o mundo passa, bem como os seus desejos; mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre.

Há coisas que a Bíblia manda amar. Amar a Deus. Amar a sua Palavra. Amar a igreja. Amar os irmãos. Amar até os inimigos. Mas há também coisas que a Bíblia manda odiar. O mal. A falsidade. A injustiça. A divisão. E, neste texto, João nos dá uma ordem que, à primeira vista, parece estranha: “Não amem o mundo nem as coisas que há no mundo.”

João não dizendo que devemos rejeitar as boas coisas da criação. Ele não está afirmando que não devemos amar comida boa, ver o mar, apreciar arte, esportes ou as belezas da criação. também não está dizendo que devemos odiar pessoas, uma vez que o próprio Deus as amou e enviou seu Filho ao mundo.

Então de que “mundo” João está falando? Ele está descrevendo um sistema de valores, desejos e ambições que se opõe a Deus. Amar o mundo é organizar sua vida de forma a considerar Deus como algo dispensável, Jesus como um acessório. Um sistema em que a vontade de Deus é irrelevante e no qual nosso coração se entrega ao que é passageiro, não ao que é eterno.

João sabe que esse sistema é atraente, que há uma inclinação em nossa carne para a autossatisfação, uma inclinação ao fascínio das riquezas, às ambições e às paixões. Então, antes de dizer “não amem o mundo, ele lembra aos crentes quem eles já são em Cristo.

É impossível vencer a sedução do mundo e as inclinações da carne apenas com condenação e proibições. Somente Cristo em nós é capaz de reorganizar nossos amores. Vencer o amor ao mundo só é possível aos pés de Jesus. É exatamente isso que o texto faz.

O sermão vai mostrar esses dois movimentos: no primeiro João nos lembra do que já somos em Cristo. Depois, no segundo movimento, ele nos mostra que o mundo promete, mas não consegue nos satisfazer.

1. Saiba o que você já é em Cristo, para não vender o coração ao mundo (2:12–14)

O texto começa do jeito certo. Antes da exortação, João oferece encorajamento. Antes da advertência, o apóstolo reforça a identidade. Antes de dizer “não amem o mundo”, ele diz, na prática: “Lembrem-se de quem vocês são.”

Isso é importante. A luta contra a mundanidade, contra a licenciosidade, contra o desespero moral, não começa com mera disciplina ou com força de vontade. A base para um novo sistema de valores começa na identidade em Cristo.

A primeira afirmação é: vocês estão perdoados. João diz:

12 Filhinhos, escrevo a vocês, porque os seus pecados são perdoados por causa do nome de Jesus.

Percebam o início da vitória espiritual. Ela não reside no desempenho, na maturidade cristã, nem num currículo de serviços religiosos. A vitória começa no perdão. João não diz: sejam fortes e serão aceitos. Ele diz: “Vocês foram perdoados por causa do nome de Jesus.”

O centro da fé e da vitória está em Cristo. Tudo aponta para Ele e Sua obra. O nome de Jesus não é um mantra religioso para afastar mau olhado. Perdão pelo nome de Jesus é a fé na realidade profunda de que o Filho de Deus viveu, morreu e ressuscitou por pecadores.

A maior necessidade do ser humano não é ter status, estabilidade, conforto ou validação. Nossa maior necessidade é perdão. Vivemos em rebelião contra o Deus que nos criou. O mundo não pode nos perdoar, não tem poder para isso e nem vontade. Só Deus pode perdoar pecados que cometemos contra Ele e contra os outros.

O mundo que não oferece perdão, oferece distrações para a culpa. Ele diz que o pecado não é real, que a culpa é apenas uma construção religiosa e, assim, tenta oferecer uma espécie de anestesia para a consciência. Outra tentativa do mundo é oferecer uma ilusão de autossalvação. “Encontre salvação em si mesmo”. Mas o mundo não consegue perdoar pecados. Só Cristo pode fazer isso.

E João começa aqui. Se você foi perdoado por causa do nome de Jesus, por que você entregaria seu coração a um sistema que é incapaz de purificar de verdade sua consciência e de dar paz para com Deus?

**Você conhece o Pai.**João também diz que os pais conhecem aquele que existe desde o Principio. Que os filhinhos conhecem o Pai. Em outras palavras: em Cristo, vocês não receberam apenas absolvição, receberam um relacionamento com Deus. Não fomos apenas perdoados por aquele que vai julgar o mundo. Fomos acolhidos por Ele como Pai.

Essa é uma das grandes glórias do evangelho. Deus não apenas remove nossa culpa e nos deixa à distância. Ele nos perdoa e nos recebe. Ele vai além de cancelar a dívida do rebelde. Ele nos adota.

Essa verdade deve mudar muda profundamente a forma como lidamos com o mundo. Nosso amor pelo mundo nasce do desejo de substituir Deus em nossa vida. Quem não descansa no amor do Pai, começa a mendigar identidade em outras coisas: na carreira, na aprovação dos outros, na estética da família perfeita, no sucesso dos filhos, na imagem de competência, na segurança financeira, na admiração social.

Mas João olha para a igreja e diz: “Vocês conhecem o Pai.” Isso significa que não precisamos lutar para conquistar o amor por nós ou pela imagem que projetamos. Quem foi salvo e perdoado por Jesus tem agora Deus como Pai e não é mais um órfão espiritual.

Você é vitorioso na fé

João também fala aos jovens: vocês são fortes, a palavra de Deus permanece em vocês, e vocês venceram o maligno. Isso não significa independência ou autossuficiência. A vitória cristã tem sua origem em Cristo e se expressa numa Palavra que habita, que permanece em nós, e que nos faz vencer o maligno.

O mundo quer que você acredite que é fraco para dizer não, carente demais para obedecer, vulnerável demais para resistir ao maligno e ao mal que ainda habita em nós. Mas João responde: em Cristo, vocês são fortes.

Essa força não vem da disciplina, da autoestima ou de possuir um caráter obstinado. A força vem do fato da Palavra permanecer em nós, porque Cristo Já venceu por nós. A palavra nos diz que na Cruz, Jesus expos principados e potestades ao vexame público. O maligno foi derrotado.

Assim, nossa luta não é para fazer nosso nome conhecido e encontrar nosso espaço. Nossa luta tem como base nossa identidade em Cristo, que venceu em nosso lugar. Não lutamos para sermos filhos, lutamos por termos sido adotados. Não lutamos para merecer o amor de Deus, isso seria impossível. Resistimos e lutamos porque Deus nos amou no Filho.

Percebam, o mundo oferece distração, mas quem ainda não crê precisa mesmo é de perdão. O mundo vende a ilusão de que precisamos nos esforçar para pertencer, mas quem apenas crê em Jesus é Filho de Deus, tem Deus como Pai. O mundo grita que você precisa vencer, mas a Bíblia ensina que precisamos é da vitória de Cristo em nosso favor. Enquanto Jesus não for o centro, sua vida será procurar substitutos para Deus.

Quem já creu precisa lembrar dessa identidade. Você já foi perdoado, já conhece o Pai e já recebeu a Palavra. Então coloque a busca por dinheiro, conforto, reputação no seu devido lugar. Deixe que o seu amor a Jesus oriente suas prioridades.

Como igreja, precisamos resistir ao amor pelo mundo. Isso só será possível quando nossa identidade estiver ancorada no evangelho. Uma igreja que não tem sua identidade baseada na cruz é vulnerável à sedução cultural e às heresias.

Transição.Depois de lembrar quem somos em Cristo, João agora nos mostra o que devemos rejeitar: o amor ao mundo. E ele faz isso por causa da tentação que temos por amores desordenados.****

2. Saiba o que o mundo oferece, mas nunca pode entregar (2:15–17)

João é direto: “Não amem o mundo nem as coisas que há no mundo.”

Ele não começa com sugestões de estilo de vida. Ele comunica uma ordem. Não é uma questão de preferência, mas de adoração. Amar o mundo não é apenas apreciar coisas belas ou agradáveis. É entregar o coração a um sistema que se opõe a Deus. O amor ao mundo em detrimento do amor a Deus é um problema de adoração.

A questão pode se resumir num desequilíbrio de amores. A pergunta não é se amamos, mas o que amamos acima de tudo. João está dizendo que não devemos ser governados pelo nosso amor pelo mundo.

**O mundo não pode lhe dar o que você precisa.**Ele explica: “Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele.” Não há neutralidade. João não diz que é possível tentar equilibrar o amor ao mundo com o amor por Deus. Um coração dominado pelo amor ao mundo revela a ausência do amor do Pai.

Você precisa do Pai. Fomos criados para viver em comunhão com Ele. Deus não nos criou apenas para vivermos em busca de experiências, conquistas e prazeres como uma distração. Ele nos criou para Ele.

Percebam o perigo. É possível construir uma vida admirável por fora, mas completamente mundana por dentro. É possível ser respeitável, funcional, disciplinado, criar uma família bonita e, ainda assim, ter o coração entregue ao mundo.

A mundanidade é muito mais do que uma vida marcada pelo vício ou pelo escândalo. A verdadeira face desse amor ao mundo é uma vida que acredita ser funcionalmente independente do Pai.

O mundo não pode lhe dar o que promete. Mas porque amar o mundo é inútil? Porque o mundo não pode lhe dar o que você realmente precisa. João prossegue, v. 16: “Porque tudo o que há no mundo — os desejos da carne, os desejos dos olhos e a soberba da vida — não procede do Pai, mas procede do mundo.”

João descreve três grandes seduções deste mundo:

**Os desejos da carne:**Esses são as vontades que pulsam dentro de nós para buscarmos a satisfação de nossos apetites sem submissão a Deus. Nossa carne grita dentro de nós: “eu quero isso, eu preciso ter.”

Os desejos dos olhos: consiste num coração escravizado pela cobiça do que vê. O que vemos virá um desejo que nos leva a uma vida governada pela comparação, pela inveja, pelo desejo de possuir, pelo fascínio pela imagem. É olhar e desejar, olhar e ficar ressentido por não ter, olhar e se vender por dentro. Esse desejo dos olhos é intensificado pela publicidade, pelas redes sociais, pelas telas.

A soberba da vida: É um jeito de viver que tem como base a arrogância do que se possui, se conquista ou se aparante ter. É a necessidade de parecer importante para ser respeitado ou amado. Essa tentação é a de ter uma identidade baseada no patrimônio, no poder, na fama, no currículo, no corpo, na performance, no número de filhos, no estilo de vida. É querer construir a vida sobre si mesmo, sobre sua imagem, sua marca pessoal.

João conclue que essas coisas não procedem do Pai. E porque elas não vêm de Deus, elas não são eternas e não podem substituir Deus.

Perceba: o mundo sempre promete mais do que entrega. Essas coisas prometem prazer, liberdade, identidade, grandeza, segurança, felicidade, mas elas fornecem apenas escravidão, vício, ansiedade, vaidade, medo de perder, cansaço.

E é exatamente aqui que Cristo precisa ser visto. Onde Adão caiu, Cristo venceu. Onde nós cedemos, Cristo permaneceu obediente. Onde o mundo seduz, Cristo resistiu. Onde o Pai foi trocado por desejos da carne, dos olhos e da soberba, Cristo preferiu a vontade do Pai.

**Não lutamos sozinhos contra o mundo; lutamos unidos ao Salvador que já venceu o mundo.**O chamado é a resistir na companhia de Jesus, nosso Salvador que venceu o mundo.

Mas além de não entregar o que promete, o amor ao mundo é um amor passageiro. **O mundo não pode lhe dar o que é eterno.**João fecha assim, v.17: “Ora, o mundo passa, bem como seus desejos; mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre.”

Aqui está o argumento final. O mundo não apenas falha em dar satisfação verdadeira, mas esse mundo está passando, está nas últimas.

Tudo o que hoje parece sólido e irresistível está com os dias contados, em processo de decomposição. A beleza, o status, as riquezas, a moda, o poder, a influência, as conquistas, as paixões. Todo esse sistema que pretende ser uma alternativa para Deus está desmoronando.

João não está nos chamando a odiar as coisas boas que o próprio Deus fez, mas ele está amorosamente nos chamando para sermos construtores sábios que edificam sobre a Rocha e não sobre a areia.

Só a vontade de Deus permanece, só quem está unido a Cristo permanece. Só aquilo que é feito no Pai, pelo Filho e no Espírito tem peso eterno. É por isso que a conta de amar o mundo não fecha. É um péssimo negócio do ponto de vista da eternidade. É trocar o Pai por sombras, o eterno pelo passageiro, a vida por uma pseudovida.

Sem Jesus, sua alma não vai ter o que ela precisa. O mundo não vai conseguir matar sua sede por prazer, sucesso, autonomia. Se o mundo inteiro fosse seu, ele não seria suficiente para reconciliar você com o Criador. O convite é o de se arrepender desses amores deslocados e correr para Cristo.

Quem já crê precisa sempre examinar o que tem amado. O que te deixa animado? O que te desestabiliza? O que ocupa sua imaginação? O que define seu humor? Responder essas perguntas pode revelar que amor está dominando seu coração. Lembre que João ensina: não ame o mundo.

Para a nossa igreja, o desafio é o de enxergar a mundanidade com mais profundidade. Ir além dos pecados visíveis ou escandalosos. Esses devem ser combatidos, mas a mundanidade pode ser mais perigosa e aparentar ser respeitável. A mundanidade pode se refletir na idolatria do conforto, dos filhos, do sucesso, da imagem ou da aprovação.

Conclusão:Uma das histórias mais tristes do Novo Testamento é a de Demas. Ele andou com Paulo e com Lucas. Ele foi chamado de colaborador. Mas perto do fim, em 2 Tm 4:10, Paulo diz: “Porque Demas, tendo amado o presente século, me abandonou”

Esse é o ponto. A tragédia de Demas não foi causada pela perseguição, ele não foi coptado por alguma heresia e não foi fonte de algum escândalo. O diagnóstico das Escrituras é simples e terrível: ele amou o presente século.

Isso é um alerta para nós. Podemos nos acostumar com os jargões do evangelho e, ao mesmo tempo, entregar o coração ao mundo. Por isso o alerta de João em duas fases: primeiro: lembrem do evangelho, olhem para Jesus e lembrem que foram perdoados, que conhecemos o Pai e que permanecemos na Palavra. Depois, lembrem-se que o munod é sedutor, mentiroso, insuficiente e passageiro.

Se você ainda não crê, o chamado é simples: não entregue sua vida ao que passa. Corra para Cristo. Nele há perdão real, adoção real e vida real. Sua vida de amor ao mundo é uma vida de rebelião contra Deus. Você precisa se arrepender.

Se você já crê, pare de negociar o coração com o mundo. Você não foi salvo para ser mais comportado do que o vizinho. Você foi salvo para amar a Deus acima de todas as coisas.

E, como igreja, que o Senhor nos livre de uma fé que fala de Cristo, mas que é apaixonada pelo presente século. Que ele nos faça um povo contente no Pai, forte na Palavra e livre da sedução do mundo. Porque aqueles que verdadeiramente amam e seguem a Cristo não devem se apaixonar pelas coisas deste mundo, mas pelo Pai, que lhes dá tudo o que realmente precisam. Amém.