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1 João 3:4-10 - Por que Jesus Veio?

21 de maio de 202614 min de leitura

1 João 3:4-10 - Por que Jesus Veio?

4 Todo aquele que pratica o pecado também transgride a lei, porque o pecado é a transgressão da lei. 5 E vocês sabem que ele se manifestou para tirar os pecados, e nele não existe pecado. 6 Todo aquele que permanece nele não vive pecando; todo aquele que vive pecando não o viu, nem o conheceu. 7 Filhinhos, não se deixem enganar por ninguém. Aquele que pratica a justiça é justo, assim como ele é justo. 8 Aquele que pratica o pecado procede do diabo, porque o diabo vive pecando desde o princípio. Para isto se manifestou o Filho de Deus: para destruir as obras do diabo. 9 Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática de pecado, porque nele permanece a semente divina; esse não pode viver pecando, porque é nascido de Deus. 10 Nisto são manifestos os filhos de Deus e os filhos do diabo: todo aquele que não pratica a justiça não procede de Deus, e o mesmo vale para aquele que não ama o seu irmão.

Por que Jesus veio? Essa é uma pergunta natural e decisiva. A forma como você responde essa pergunta mostra como você entende o evangelho, a salvação, o pecado, a santificação e até a sua própria vida.

Muita gente responde essa pergunta de forma rasa. Dizem que Jesus veio para inspirar, ensinar sobre o amor, fazer esse planeta evoluir, melhorar a sociedade ou para ajudar pessoas a suportarem o sofrimento desta vida. Tudo isso soa bonito, mas é insuficiente e superficial.

João não responde essa pergunta com sentimentalismos. Ele trata a questão como uma objetividade cortante: Jesus veio para tirar os pecados e destruir as obras do Diabo.

Isso significa que o nosso problema é muito maior do que imaginamos. Nosso problema não é de mero desajuste social ou emocional. Se o Filho de Deus precisou se manifestar para lidar com o pecado, então isso significa que o pecado não é algo banal, não é um mero tropeço ou uma disfunção emocional ou psicológica. Pecado não é imaturidade. Pecado é rebelião, é transgressão, é iniquidade. Pecado é uma afronta contra Deus.

E, se Jesus precisou vir para destruir as obras do Diabo, então o Diabo não é uma figura de linguagem ou uma metáfora religiosa. O Diabo não é um recurso pedagógico para apontar para o mal. O Diabo é realmente um anjo caído, com obras reais, que opera o engano e que intervém de forma real para influenciar, para matar, roubar e destruir.

João escreve para gente suscetível ao erro, para gente que pode gostar de se enganar. Gente que se iludiu com a ideia de que pertence a Deus, mas que nunca nasceu de novo. Gente que diz conhecer Cristo, mas que trata o pecado como um amigo, um hábito, um prazer, um padrão. Gente que consegue falar crentes, mas que não é nova criatura.

Então este não é um texto confortável para quem quer se enganar. É um diagnóstico espiritual, um texto de confronto. Um texto que serve para diferenciar filhos de Deus dos filhos do Diabo. Ele nos força a encarar uma pergunta incômoda: **se Jesus veio para tirar o pecado, como alguém pode dizer que pertence a ele e continuar vivendo no pecado?**Esse é o ponto do texto.

João organiza esse argumento em três movimentos: primeiro, Jesus veio para nos libertar do pecado; depois, Jesus veio para destruir as obras do Diabo; por fim, Jesus veio para manifestar quem são os filhos de Deus.

1. Ele veio para nos libertar do pecado (1 João 3:4–6)

João começa com uma definição que desmonta algumas convicções equivocadas:

“Todo aquele que pratica o pecado também transgride a lei, porque o pecado é a transgressão da lei.”

Isso é direto. Pecado não é apenas fraqueza ou uma limitação. Pecado não é imaturidade ou um equívoco humano. O pecado é a transgressão da lei.

Pecar, assim, é viver em rebeldia contra o governo de Deus, pecar é desafiar a autoridade de Deus, rejeitar Sua vontade para afirmar a própria vontade. Pecar é dizer com a forma como agimos: “eu não me submeto a Deus, eu desprezo a Sua Lei.”

Esse é maior problema da humanidade. Sofrimentos, traumas, carências, deficiências de todas as ordens são apenas reflexos de um mundo caído. E esse mundo caiu por conta da rebelião de nossos pais. Nosso problema é que somos culpados diante de Deus. Nosso maior problema é que nascemos em rebelião moral e espiritual contra Deus. O nosso problema é que queremos ser iguais a Deus e expressamos isso nos rebelando contra o seu governo sobre nós.

João não trata o pecado como algo sem importância. Ele não está falando de algo eventual. Ele está falando de uma vida marcada pelo pecado, pela autonomia de Deus. O versículo 4 fala de viver na prática do pecado. Ou seja, Jesus veio para nos resgatar de uma vida marcada por um padrão, um hábito, uma direção, um estilo de vida caracterizado pelo pecado. João descreve uma vida moldada pela transgressão.

E aqui entra a glória da encarnação, da primeira vinda de Jesus. Lembram, o sermão anterior falava sobre como a esperança da próxima vinda de Jesus deve nos levar a uma vida de pureza, agora é a obra de Jesus na sua vida e morte o motivo para isso.

“E vocês sabem que ele se manifestou para tirar os pecados, e nele não existe pecado.”

Por que Jesus veio? João responde: para tirar os pecados. Jesus não veio para resgatar sua autoestima, para afirmar seu ego, para legitimar sua autonomia. Jesus não veio para que fazer do pecado algo tolerável. Jesus não veio nos dar uma máscara para que pudéssemos fingir que amamos a Deus enquanto vivemos no pecado. Jesus veio para tirar os pecados.

Isso significa que o pecado não é algo que se resolve seguindo conselhos, olhando para exemplos ou com uma reforma moral pelo convencimento intelectual. O pecado demanda redenção, demanda expiação, demanda derramamento de sangue, demanda a cruz.

Jesus veio como o único capaz de fazer isso porque, diz João, **“nele não existe pecado.”**Aqui está o coração do evangelho: aquele que não conheceu pecado, Deus o fez pecado para sermos feitos justiça de Deus.

Só Jesus podia fazer isso. Ele é o Salvador perfeito, o único imaculado, sem mancha. Apenas Jesus é o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Apenas Jesus é o único mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo Homem. Só Jesus era totalmente puro para enfrentar a condenação que merecíamos.

E então João tira a consequência inevitável:

“Todo aquele que permanece nele não vive pecando; todo aquele que vive pecando não o viu, nem o conheceu.”

Isso precisa ser dito com clareza, sem medo, sem meias palavras. João não está ensinando perfeccionismo espiritual ou perfeição aqui. Ele já nos ensinou que, se pecarmos, temos um advogado. João não está dizendo que um cristão verdadeiro não peca, não luta, não cai, nunca tropeça. Ele está dizendo outra coisa: quem permanece em Cristo não é alguém que tem o pecado como padrão dominante de vida.

Permanece em Cristo e vive no pecado? Não. Conhece a Cristo e ama o pecado? Não. Foi alcançado pelo evangelho e continua tranquilamente governado pela transgressão? Não. Por quê? Porque Jesus não veio para coexistir com o pecado. Ele veio para tirá-lo. Então, quando alguém insiste em viver numa prática de pecado, quando alguém fica justificando seu pecado de estimação, então João não diz: “talvez apenas falte maturidade espiritual”. Ele diz: **“não o viu, nem o conheceu.”**Isso é duro. Mas é Bíblia.

Há muita gente que quer um Jesus que perdoa mas não liberta, que acolhe sem transformar, que consola sem apontar o erro, um Jesus que salva mas que não liberta as pessoas da escravidão do pecado. Esse Jesus não existe. Esse Jesus adocicado é um ídolo, uma acomodação para alguém se sentir bem e continuar no erro.

O Cristo verdadeiro tira pecados. E, por isso, quem permanece nele rompe com uma vida marcada pelo pecado, renuncia, por mais doloroso que seja, a si mesmo por amor de Cristo.

Então, se sua vida continua sendo governada pelo pecado, o seu problema não é falta de informação bíblicas. Seu problema é maior e mais grave. Você ainda precisa ser libertado por Cristo, ainda precisa de arrependimento sincero e de clamar por perdão. Quem é caracterizado por um pecado, descrito por uma rebelião contra Deus ainda precisa nascer de novo, precisa de salvação.

Você que já experimentou essa graça, saiba que você ainda vai pecar. A questão é o que fazemos quando isso acontecer. Para onde você vai? Quando o pecado residual se manifestar, ele precisa ser confessado e abandonado, quantas vezes for necessário. O que não pode acontecer é fazer do pecado o seu prazer, o seu objetivo, o controla suas escolhas.

Essa realidade é tão perigosa. A igreja não pode suavizar a mensagem do pecado para parecer acolhedora. Pecado não é detalhe, pecado é rebeldia contra o governo de Deus. Se o pecado não for levado a sério por cada um de nós, então a cruz de Cristo será desonrada em nosso meio.

Mas João não quer apenas mostrar o que Jesus veio fazer em relação ao pecado. Ele quer mostrar também contra quem essa obra foi feita. Porque por trás do engano, da sedução e da prática do pecado há um inimigo real. Por isso ele diz, no segundo movimento, que Jesus veio para destruir as obras do Diabo.

2. Ele veio para destruir as obras do Diabo (1 João 3:7–8)

João começa esse bloco com uma advertência pastoral curta e forte:

“Filhinhos, não se deixem enganar por ninguém.”

Isso já mostra que o problema não é só o pecado. O problema é maior. Além do pecado, existe o engano sobre o pecado. há falsos mestres ensinado que podemos ser de Deus e viver como se o pecado fosse irrelevante. Gente que ensina que a graça de Deus torna a santidade opcional, gente dizendo que o jeito que vivemos não se conecta com nossa filiação. Gente ensinando é possível ser justo sem fazer o que é justo.

João responde: **não se deixem enganar.**E então ele estabelece o princípio:

“Aquele que pratica a justiça é justo, assim como ele é justo.”

De novo, João não está ensinando justificação por obras. Ele não está dizendo que praticar justiça produz a justiça que nos salva. Ele está dizendo que a prática da justiça revela quem foi feito justo em Cristo. A vida mostra a linhagem. O fruto revela a raiz. A conduta manifesta a natureza. Quem foi alcançado pelo Justo passa a andar na justiça. Não perfeitamente. Mas verdadeiramente.

Aí João vai mais fundo: “Aquele que pratica o pecado procede do diabo, porque o diabo vive pecando desde o princípio.”

Isso é chocante. Mas é a frase necessária para nos fazer perceber a tendência de minimizar o mal. João não diz que quem pratica o pecado apenas “cometeu um erro”, “ainda não se encontrou”, ou que “tem questões mal resolvidas”. Ele diz: procede do diabo.

Por quê? Porque o Diabo vive pecando desde o princípio. O pecado não é apenas uma falha horizontal ou interna. O pecado tem afinidade espiritual com o reino das trevas. O pecado não é neutro. O pecado tem pai, tem linhagem, se conecta com a história de rebelião contra Deus.

E então vem uma das frases mais gloriosas de toda a passagem:

“Para isto se manifestou o Filho de Deus: para destruir as obras do diabo.”

Por que Jesus veio? Para destruir as obras do Diabo. Isso muda tudo. O Filho de Deus entrou no território inimigo para destruir as obras do Diabo. Jesus não veio negociar com Satanás ou para coexistir com o mal. Jesus não veio para que pecadores lidem melhor com o domínio maligno.

Ele veio para destruir. Destruir o que? As obras do Diabo. E, no contexto, essas obras incluem: o pecado; o engano; a escravidão moral; a mentira espiritual; a falsa segurança; a separação entre confissão e vida.

Na cruz, Jesus desferiu o golpe decisivo. Na ressurreição, ele expôs a derrota do inimigo. No novo nascimento, ele aplica essa vitória ao seu povo. Na consumação, ele eliminará completamente a presença do pecado e de Satanás.

Ou seja: a pena do pecado foi tratada na cruz; o poder do pecado foi quebrado no novo nascimento e a presença do pecado será removida na glória. Tudo isso porque o Filho de Deus se manifestou.

Então não se engane: o Diabo já é um inimigo derrotado, ainda que continue ativo. E o crente não luta para conquistar uma vitória incerta. Ele luta a partir da vitória já conquistada por Cristo.

Se você vive em engano moral e espiritual, isso não é independência. É escravidão. Você não está neutro. Você precisa ser arrancado do domínio das trevas pelo Filho de Deus.

Os crentes não devem se deixar enganar. Se Cristo veio para destruir as obras do Diabo, então não trate como inofensivo aquilo que Jesus veio destruir. Não brinque com o pecado. Não chame de “fase”, “temperamento” ou “fraqueza” aquilo que pertence ao reino das trevas.

Uma igreja que tolera mentira doutrinária e vida dissoluta em nome de relevância ou acolhimento está cedendo terreno às obras do Diabo. A igreja precisa amar com verdade, não com omissão.

Mas João não quer apenas dizer do que Cristo nos livra. Ele quer dizer também o que Cristo produz. A vinda de Jesus não apenas remove culpa e derrota o inimigo. Ela também manifesta, claramente, quem são os filhos de Deus.

3. Ele veio para manifestar quem são os filhos de Deus (1 João 3:9–10)

João diz:

9 Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática de pecado, porque nele permanece a semente divina; esse não pode viver pecando, porque é nascido de Deus.

Aqui João volta ao novo nascimento. E ele faz isso porque a mudança de vida não nasce de reforma externa. Ela nasce de nova natureza. Quem nasceu de Deus foi regenerado. Quem nasceu de Deus foi transformado na essência. Quem nasceu de Deus não é apenas alguém com nova opinião sobre Deus, mas alguém que tem um novo coração, nova disposição, novo princípio de vida. É por isso que João pode dizer: “não pode viver pecando.”

De novo: isso não significa impecabilidade. Significa impossibilidade moral de fazer do pecado a forma normal de viver. O novo nascimento rompe com a velha natureza. A regeneração mudou o curso da vida. Pode ainda existir a luta contra o pecado residual, mas o pecado já não governa como antes.

E João amarra tudo no versículo 10:

10 Nisto são manifestos os filhos de Deus e os filhos do diabo: todo aquele que não pratica a justiça não procede de Deus, e o mesmo vale para aquele que não ama o seu irmão.

Aqui está a distinção final. João simplifica como um bom pastor e bom professor: existem dois pais espirituais; existem duas linhagens:

Quem é de Deus pratica a justiça e ama o irmão. Quem não procede de Deus, não pratica a justiça e não ama o seu irmão.

Percebam a simplicidade de João. Ele não deixa espaço para que alguém com uma religiosidade da boca para fora se convença que anda com Deus sem praticar a justiça e sem amar os irmãos. Não há espaço para uma profissão de fé desconectada da prática. O texto não pergunta apenas o que você diz crer, ele pesquisa o que a nossa vida manifesta.

As crianças imitam seus pais. Os filhos de Deus revelam seu Pai pela justiça e pelo amor. Os filhos do Diabo revelam sua linhagem pelo pecado e pelo ódio. Essa é a pergunta final do texto:

**quem é o seu pai?**Sua vida responde isso.

A questão decisiva então não é se você se considera uma pessoa espiritual, religiosa ou moralmente boa. A questão é: você nasceu de Deus? Se não nasceu, precisa urgentemente ser liberto por Jesus.

Se sim, então essa nova vida precisa ficar evidente. Se você já nasceu de Deus, isso será perceptível na sua luta contra o pecado e no seu amor pelos irmãos. Isso não será perfeito, mas precisa ser real.

Como igreja precisamos manifestar que somos filhos de Deus, fazendo obras de justiça e com amor concreto. Sim, nosso jeito de viver, nosso vocabulário e nossos louvores são boas coisas, mas o que distingue nossa filiação é a justiça e o amor concretos.

João neste trecho mostra porque Jesus veio. Ele veio para tirar os pecados. Ele veio para destruir as obras do Diabo. Ele veio para manifestar quem são os filhos de Deus.

Isso significa que a vinda de Cristo não foi simbólica ou decorativa. Jesus não veio para deixar as coisas melhroes, o mundo mais palatável. Não, Jesus veio para uma guerra, ele veio para nos resgatar, para nós libertar do império das trevas, para iniciar uma nova criação. Jesus, o Filho de Deus, entrou no mundo para refazer o que o pecado arruinou.

Então a pergunta dolorosa que precisamos responder é se que tipo de relação nossas vidas mostram que temos com Jesus?”

Permanecemos no pecado? Ficamos em paz com a transgressão? Achamos que santidade é um exagero, um puritanismo? Vivemos sem obras de justiça e sem amor? Se isso nos caracteriza, então não nos enganemos.

Mas, se o Espírito de Deus o fez nascer de novo, então agradeça. Porque isso não veio de você. Foi Cristo quem veio. Foi Cristo quem pagou. Foi Cristo quem venceu. Foi Cristo quem refez. E é por isso que o cristão pode terminar esse texto com gratidão, não com desespero.

Que alegria é ser filho de Deus. Que bênção é ter sido salvo. Que esperança é ter sido arrancado do domínio do pecado e da tirania de Satanás. Jesus, obrigado por teres encarnado, vivido uma vida sem pecado, morrido em nosso lugar a morte que merecíamos e ter ressuscitado para nossa justificação. Amém.