Gênesis 1:1 - Antes de Tudo, Deus
05 de setembro de 2026 • 11 min de leitura

Quase sempre começamos nossas histórias conosco no centro: o que desejamos, o que perdemos, o que tememos, o que planejamos. Mesmo quando pensamos em Deus, frequentemente perguntamos primeiro o que ele pode fazer por nossa vida. A Bíblia apresenta uma outra narração sobre a história: “No princípio, Deus.”
Antes de qualquer outra pessoa existir, antes de surgir qualquer luta e antes de existir qualquer realidade material, Deus já existia.
Essa primeira declaração de Gênesis nos convida a olhar para a realidade tendo Deus como centro. A Bíblia não inicia colocando a humanidade como protagonista ou como o centro da narrativa. A Bíblia começa com a revelação de quem Deus é.
Essa centralidade em Deus como causa e origem dos começos não é apenas uma verdade sobre a origem do universo ou da vida. É uma verdade que deve reorganizar como nós lidamos com a vida. A verdade é que a realidade não começa conosco.
Hoje temos um começo. Vamos iniciar uma série de sermões no livro de Gênesis. Gênesis significa “origem” ou “o livro dos começos”. Nessa narrativa histórica, encontramos o começo da criação, da humanidade, do casamento, do pecado, das nações e da história de Israel. Gênesis, porém, não registra o começo de tudo. Quando o princípio começou, Deus já existia.
Essa primeira frase nos apresenta três verdades.
1. Antes do princípio, Deus já existia
“No princípio, Deus.” A criação teve um princípio. Deus, não. Moisés expressou essa verdade no Salmo 90:
“Antes que os montes nascessem e se formassem a terra e o mundo, de eternidade a eternidade, tu és Deus.” Salmo 90.2
Não houve um tempo em que Deus começou a existir. Ele não foi criado, não surgiu de alguma força anterior e não depende de algo fora de si mesmo. Tudo o que conhecemos e podemos tocar é dependente, apenas Deus é completamente suficiente em si mesmo.
Precisamos de comida, de água, de descanso, de proteção. Dependemos de condições que não controlamos. Nenhum de nós possui em si mesmo a razão de sua existência. Deus é diferente de nós. Ele possui vida em si mesmo. Ele não depende do universo que criou, da humanidade ou de nossa adoração para ser plenamente Deus.
Antes de criar, Deus era alguém solitário procurando alguém para conversar. Deus não era incompleto e tampouco estava à busca de alguém que suprisse alguma necessidade ou carência. Pai, Filho e Espírito viviam eternamente em perfeita comunhão, amor e glória.
Jesus orou ao Pai, em João 17:5:
“Pai, glorifica-me contigo mesmo, com a glória que eu tive junto de ti, antes que houvesse mundo.”
Antes que houvesse mundo, já havia glória. Antes que houvesse criaturas, já havia amor. Antes que existisse nossa história, o Deus trino já vivia em perfeita plenitude. Deus não nos criou porque precisava de nós. Essa verdade colide com a ilusão que nosso coração gosta de nutrir: a ilusão de que somos indispensáveis.
Essa ilusão faz com que acreditemos que tudo depende de nós. Nossa família, trabalho, igreja e, para alguns, até os propósitos de Deus dependeriam da nossa capacidade de nos mantermos de pé e de controlar as circunstâncias. Esse peso não deve estar sobre nossos ombros, muito menos essa pretensão em nossos corações. Gênesis começa com a declaração sobre a eternidade de Deus.
Antes de nós existirmos, Deus já era Deus. Depois que partimos dessa vida, Ele continuará eterno e reinando. A história não se apoia em nós. Essa verdade humilha e consola. Humilha porque nos tira do centro. Ela nos consola porque o peso de estar no centro de tudo é insuportável.
A eternidade de Deus nos conforta por que alguns de nós estamos exaustos porque nós sentimos responsáveis por algo que Deus nunca nos delegou. Deus nunca exigiu de nós que mantivemos todas as coisas sob nosso controle.
É claro que somos responsáveis por muitas coisas. Somos responsáveis por alimentar e trocar nossos bebês, mas não somos soberanos sobre a saúde deles. Somos responsáveis pela educação de nossos filhos, mas não podemos suportar o peso de acreditar que o futuro deles depende inteiramente da nossa capacidade de acertar sempre. Saber disso é libertador. Nós somos chamados a servir à igreja, mas ela já tem um cabeça, um dono, que é Jesus.
O Deus eterno não precisa é dependente de nós, mas pela Sua vontade, graça e disposição de se revelar, Ele decidiu nos criar, amar e incluir em Seus propósitos. Nosso valor não nasce de sermos imprescindíveis para Deus, mas do fato de sermos amados por Ele.
2. No princípio, Deus criou todas as coisas
“No princípio, criou Deus os céus e a terra.”
O primeiro verbo da Bíblia descreve uma ação de Deus: ele criou. A expressão “os céus e a terra” abrange a totalidade da realidade criada. Tudo o que existe fora de Deus deve sua existência a Deus. O universo não é eterno, ele teve uma origem e continua a se expandir. A matéria não é divina, é parte da criação. O mundo não nasceu de uma disputa entre deuses rivais que precisam estar em equilíbrio. Deus não encontrou um universo independente e decidiu organizá-lo. Deus criou todas as coisas.
O Novo Testamento mostra que Pai, Filho e Espírito participaram dessa obra. O Pai cria por meio do Filho, enquanto o Espírito de Deus paira sobre as águas. João escreve sobre o Filho: João 1.3
“Todas as coisas foram feitas por meio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez.”
Paulo afirma, em Colossenses 1.16:
“Pois nele foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis.”
Jesus não aparece repentinamente no Novo Testamento. Ele, que iremos encontrar prometido ao longo de narrativa de Gênesis, estava no princípio. Tudo foi criado por meio dele e para ele Jesus é o agente da criação. Isso significa que a realidade tem uma origem. Se ela tem origem, ela tem um propósito e tem um dono.
Pense sobre isso: não somos um acidente cósmico. Não somos um pedaço de pedra azarado que sente frio e fome. Nossa existência não é obra do acaso ou do passar de bilhões de ano. O mundo procede da vontade sábia e soberana do Criador.
Essa verdade declarada aqui logo no início estabelece uma distinção fundamental: Deus é o Criador; nós somos criaturas. A origem do pecado consiste na tentativa de apagar essa distinção. Nossos primeiros pais desejaram definir por si mesmos o bem e o mal. Da mesma forma, queremos uma autonomia existencial que nos permita gerir nossos recursos, corpos, relacionamento e o nosso tempo como se fossem uma propriedade exclusivamente nossa.
Gênesis começa declarando que nada, além de Deus, é verdadeiramente autônomo e independente. Se Deus criou todas as coisas, então Ele é o dono de todas elas. As implicações disso são enormes: Ao invés de perguntarmos “O que eu quero fazer com minha vida?”, passamos a perguntar: “Como eu honro a Deus com minha vida?”.
Em vez de dizer: “Minha família, minhas regras”, passamos a pensar: “Como o Deus que criou a família deseja que eu viva meu casamento?” Ao invés de usarmos nossas preferências pessoais para decidir sobre dinheiro, sexualidade, trabalho, descanso e futuro, reconhecemos que todas essas áreas pertencem ao Deus que as criou.
A doutrina da criação é uma declaração sobre quem governa, não apenas uma discussão abstrata sobre o passado. Talvez por isso, pessoas prefiram acreditar que algo impessoal deu origem ao universo, e não um Deus pessoal.
Agora, se Deus é o Criador, então nós estamos em rebelião quando tentamos reconstruir a realidade para adaptá-la aos nossos desejos. A realidade foi estabelecida por Ele. Ele criou todas as coisas e nos deu a Sua Palavra para habitarmos num mundo que pertence a Ele.
Isso também modifica a maneira como enxergamos o próximo. Nenhum ser humano é descartável. Pobre ou rico, saudável ou enfermo, nascido, em gestação ou congelado, conhecido ou anônimo: todo ser humano recebe dignidade daquele que o criou. A criação pertence a Deus. Nosso corpo pertence a Deus. Nossa história pertence a Deus. Porque no início, Deus criou todas as coisas.
3. Desde o princípio, a criação aponta para Cristo
Gênesis 1.1 não menciona ainda o pecado, a queda ou a redenção. Não devemos forçar tudo isso para aqui, mas podemos ler essa primeira frase à luz do restante das Escrituras. O Deus que criou o mundo sabia que a humanidade cairia. A entrada do pecado não o surpreendeu nem obrigou a improvisar uma solução.
Paulo afirma que Deus escolheu seu povo em Cristo “antes da fundação do mundo” e que nos predestinou segundo o propósito de sua vontade. Antes que o pecado entrasse na história, o plano da graça já estava no coração de Deus.
Isso não significa que Deus seja o autor do pecado, apenas que a rebelião humana não tem poder para frustrar os propósitos divinos. À medida que avançarmos por Gênesis, veremos que a humanidade repetidamente vai se opor a Deus.
Adão e Eva desejarão ocupar o lugar de Deus; Caim vai ter inveja de seu irmão; a violência via encher a Terra; a humanidade vai tentar construir um nome para si em Babel; os patriarcas vão ter medo, vão duvidar e vão experimentar lutas familiares terríveis.
Gênesis não é uma coleção de histórias sobre homens especiais que conseguiram alcançar Deus pelo próprio esforço. Gênesis é a história do Deus que tem um plano e vai cumprir suas promessas apesar das falhas das pessoas.
Quando o homem trouxer morte como consequência do pecado, Deus prometerá um descendente da mulher; Quando as nações se dispersarem, Deus chamará Abraão e prometerá abençoar todas as famílias da terra.
Quando a promessa estiver ameaçada, Deus preservará a linhagem. Quando José for vendido por seus irmãos, Deus transformará o mal praticado contra ele em instrumento de preservação. O Deus de Gênesis está no controle da história e suas promessas conduzem até Cristo.
O Criador da criação, prometido aos nossos primeiros pais, entrou na criação como homem. O Filho eterno assumiu nossa humanidade. Aquele por meio de quem todas as coisas foram feitas veio habitar entre nós. Na cruz, os seres humanos rejeitaram seu Criador. O terrível gesto de rebelião humana era, pela graça de Deus que cumpre promessas, um meio para nossa redenção.
E o Cristo ressuscitado não apenas perdoa pecadores. Ele inicia uma nova criação. Paulo escreve: em 2Coríntios 5.17
“Se alguém está em Cristo, é nova criação.”
A Bíblia começa com a criação dos céus e da terra e termina com novos céus e nova terra. Começa em um jardim onde a vida será perdida e termina em uma cidade-jardim onde a árvore da vida estará nova e finalmente acessível. Começa com Deus criando todas as coisas por meio de sua Palavra e termina com Cristo declarando:
“Eis que faço novas todas as coisas.”
A história que começa em Gênesis encontra seu centro e sua consumação em Jesus Cristo.
Quem já crê, sabe que a sua vida não está à deriva. Pode haver momentos difíceis em que não compreendemos os propósitos. Enfrentaremos perdas, sofreremos com o pecado dos outros e com os nossos. Iremos colher consequências de escolhas erradas que não conseguimos desfazer. Mas nada disso tem a palavra final sobre nossas vidas.
O Deus que criou tudo a partir do nada também faz novas todas as coisas. Ele não abandonará a obra que começou.
Talvez você reconheça a possibilidade da existência de Deus e de que ele criou tudo, mas ainda viva como se sua vida pertencesse somente a você. A primeira frase da Bíblia confronta essa independência. Você é criatura, não Criador. Sua vida foi um presente e você será chamado a prestar contas do que fez com ela.
A boa notícia é que o Criador contra quem pecamos veio ao nosso encontro em Cristo. Ele veio para reconciliar pessoas com o Deus que as criou. A resposta apropriada não é apenas admirar a criação. É arrepender-se e confiar no Criador que se tornou nosso Redentor.
E como igreja, nesta série, não estaremos em busca de imitar pessoas inspiradoras ou de aprender princípios úteis para a vida. Nossa busca em Gênesis será para conhecer o Deus que cria, que julga, que promete, que chama, que preserva e que redime. Vamos olhar para Gênesis para perguntar: “O que essa história revela sobre Deus, sobre nossa condição e sobre a graça que culmina em Cristo?”
“No princípio, criou Deus os céus e a terra.”
A Bíblia começa com uma afirmação categórica, não com um argumento. A Bíblia não tenta provar que Deus existe. Ela anuncia que Deus estava no princípio e que todas as coisas começaram por sua vontade. A existência de Deus e seu poder sobre o que criou é um fato.
Antes de seu problema, Deus já era Deus; Antes de seu pecado, o propósito da graça já estava estabelecido. Antes de seus planos, Deus já conduzia a história para Cristo. Isso significa que nossa ação não é para criar um espaço para Deus ao nosso lado no centro das nossas vidas. Assim como Ele é o centro de onde a vida se origina, assim como Ele estava no princípio, Ele deve ocupar o primeiro lugar em nossas vidas.
Nas próximas semanas, encontraremos luz e trevas, jardim e serpente, pecado e promessa, juízo e graça, famílias quebradas e uma aliança preservada. Por trás de todas essas histórias, veremos a fidelidade de Deus.
O Deus que estava no princípio, que criou todas as coisas, que cumpre suas promessas em Cristo, caminha conosco, mas A Bíblia não começa conosco, porque a realidade não começa em nós.“No princípio, Deus.”