Pular para o conteúdo principal

Hebreus 1:1-3 - O Deus que Fala

23 de fevereiro de 202413 min de leitura

Hebreus 1:1-3 - O Deus que Fala

Muitas vezes temos dúvidas sobre com devemos ler o AT. O livro de Hebreus nos dá importantes orientações sobre como interpretar corretamente o Antigo Testamento, tendo Cristo como o cumprimento de coisas. Contudo, a história da teologia e a história da igreja demonstram que existem formas muito erradas de ler o AT.

O primeiro erro é ler o AT como se ele não tivesse correlação com a igreja. Esta forma de ler pressupõe que o AT pertence aos judeus e o NT à igreja. Dizer que somos uma igreja neotestamentária pode contribuir para esse erro. Dizer que somos uma igreja do NT pode dar a impressão de que a Bíblia começa em Mateus e não em Genesis. Mas a verdade é que o AT pertence à igreja porque é o testemunho e fornece o contexto histórico da redenção pelo evangelho de Cristo.

Marcião, um herege famoso, dizia que o Deus do AT não era o mesmo do NT. Por causa disso, ele quis retirar o AT e quase tudo do NT que fosse de alguma forma favorável ao Judaísmo. Essa mesma heresia está presente no liberalismo que afirma que o Deus do AT é um Deus grosseiro e rudimentar.

Uma forma mais discreta desse erro ocorre quando apenas ignoramos o AT. A tentação é grande. O AT é distante de nossa cultura. É mais fácil buscar consolo em Filipenses do que em Levítico. Mas Hebreus mostra que é um erro ignorar o AT porque ele nos ajuda a entender o evangelho.

O segundo grande erro é o oposto. Ele está na valorização excessiva do AT que não reconhece as transições que aconteceram com Cristo. Há uma continuidade entre o AT e o NT, mas há também uma descontinuidade significativa. Somos povo da nova aliança, portanto, devemos ler o AT sob a ótica de seu cumprimento em Cristo.

Os cristãos não devem rejeitar, ignorar ou exaltar o AT de forma acrítica. Jesus veio para cumprir o AT, não para o abolir, conforme Mt 5:17. Seus seguidores devem sempre lembrar que a nossa Bíblia começa em Gênesis, não em Mateus. O AT é proveitoso como toda a Escritura. Paulo escreve em Romanos 15:4:

4 Pois tudo o que no passado foi escrito, para o nosso ensino foi escrito, a fim de que, pela paciência e pela consolação das Escrituras, tenhamos esperança.

O Antigo Testamento, que foi “escrito no passado”, e serve para nosso ensino, nossa esperança e nosso consolo. Para vivermos fielmente diante de Deus, não devemos apenas ler o Antigo Testamento, mas também aprender a lê-lo corretamente em relação a Cristo. Esse é o desafio que Hebreus nos propõe.

Introdução: mantenha seu AT aberto... Muitos consideram Hebreus um livro muito difícil de entender. Isto acontece porque Hebreus pressupõe um bom conhecimento do AT. Hebreus além de abordar muitos temas bíblico-teológicos do AT, dedica um bom tempo para Melquisedeque, uma personagem coadjuvante pouco conhecida. Portanto, para compreender esta carta, vamos precisar da história, de temas e da teologia do Antigo Testamento. Hebreus será nosso mapa na jornada, mas é importante manter nossos AT fáceis de acessar.

**Hb. 1:1 Ouvindo a revelação de Deus desde muito tempo.**Hebreus começa com a palavra “antigamente”. Assim como Gênesis e João, Hebreus começa com uma referência cronológica que nos leva para o início da criação. Essa é uma marca de Hebreus. Ele traça uma trajetória e isso deve nos ajudar no processo de interpretar o livro. O autor aqui está trazendo o contexto de como ele vai explicar o evangelho. Não interessante que ele escolhe falar do evangelho não a partir do nascimento de Jesus em Belém, mas com a narrativa da criação e das alianças do AT? Por que isso importa tanto?

Porque o Espírito Santo, através do autor de Hebreus, posiciona a história de Cristo dentro do contexto de todo o plano redentor de Deus – plano que se estende desde a criação até a futura nova criação. Jesus é mais bem compreendido quando ele está no centro de nossa história. A história redentiva não começa há dois mil anos, mas sim no “antigamente”, nas narrativas do Antigo Testamento. A obra salvadora de Deus em Cristo começa logo no início da criação.

Hebreus sinaliza que Deus já vinha intervindo na história, mesmo antes da encarnação e da cruz. O nascimento de Jesus é algo certamente único nos atos de Deus na história, mas Deus sempre esteve agindo para preparar a encarnação de Jesus desde o início da criação. Sim, de forma muito específica, Deus vinha falando, vinha se revelando. O evangelho chega até nós no contexto de uma revelação que Deus nos oferece. O evangelho não foi primeira vez que Deus falou com a humanidade.

Durante séculos, Yahweh, “Deus falou com nossos pais pelos profetas”. Esta revelação aconteceu muitas vezes e de muitas maneiras. Deus falou por intermédio de sonhos, de visões, inspirou as escrituras, usou até uma mula! Tudo o que era necessário foi preservado para nós no que chamamos de AT que é o registo inerrante da palavra de Deus como foi transmitida ao seu povo.

Esse antigamente falou de diversas formas aos pais pelos profetas é tanto o contexto geral da revelação como a introdução de um argumento sútil da superioridade de Cristo sobre a antiga aliança.

Os pais, patriarcas, e os profetas, são a referência para qualquer argumentação teológica da comunidade judaica. Para o judaísmo, a autoridade final da revelação divina estaria contida no AT. Contudo, já no v. 2, o autor começa a demonstrar que Jesus cumpriu, sem abolir, a revelação que foi dada pelo AT.

Esse primeiro versículo é maravilhoso. Ele reafirma a autenticidade e autoridade do Antigo Testamento, mostrando que ela continua tendo autoridade como Palavra de Deus. Ao mesmo tempo, ele aponta para algo mais. O AT é uma narrativa histórica que precisava de uma conclusão messiânica. Os patriarcas e os profetas falaram verdadeiramente a palavra de Deus, mas não era o ponto final.

A ideia central aqui é que Deus é um Deus que fala. A Bíblia nos lembra repetidamente dessa verdade. Aqui, em Hb. 1:1-3, somos lembrados que Deus falou ao longo da história e que agora nos dá a revelação final na pessoa de Cristo.

Um Deus que se revela é parte integrante da manifestação da graça. A revelação de Deus é uma manifestação da graça divina. Se Deus não tivesse revelado para nós sua Palavra, não saberíamos o significado da cruz e da ressurreição de Cristo, sem a revelação da Palavra, não saberíamos ao certo como responder ao evangelho. Sem a revelação de Deus, não poderíamos conhecer Deus.

Schaeffer diz que: “ele está lá e não está em silêncio”. É pura graça de Deus que Ele venha se revelar a nós. Não merecemos que Ele se dirija a nós. Se Deus não quisesse se revelar, ficaríamos nas trevas e na ignorância.

A Bíblia indica claramente que há dois tipos de revelação. A primeira chamamos de revelação geral. Deus fala conosco por intermédio da sua criação. O Salmo 19:1-2 afirma claramente:

1 Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos. 2Um dia discursa a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite.

Rm 1:20 fala dessa revelação geral e de seu propósito:

20 Porque os atributos invisíveis de Deus, isto é, o seu eterno poder e a sua divindade, claramente se reconhecem, desde a criação do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que Deus fez. Por isso, os seres humanos são indesculpáveis.

Esta revelação geral é suficiente para deixar todos os homens indesculpáveis diante de Deus. Aquele sentimento de ser grato que um ateu experimenta vendo o mar e o desejo de negar que Deus é o criador é o suficiente para nos condenar.

Um segundo tipo de revelação mencionado nas Escrituras é a revelação especial. Esse tipo é o mencionado aqui em Hb. 1:1-3. Revelação especial é uma revelação verbal vinda da boca do próprio Deus. É o que temos nas Escrituras. quando a Bíblia fala, Deus fala.

Hb. 1:2 Ouvindo a revelação de Deus nos últimos dias. No v. 2, o autor contrasta duas épocas diferentes: o que aconteceu “antigamente” com nossos pais e os profetas, e o que acontece agora em Cristo (“nestes últimos dias”).

Versículos como este moldam a teologia bíblica e nos lembram que a relação entre o Antigo e o Novo Testamento é uma relação de promessa e de cumprimento. Como veremos ao longo de Hebreus, o NT é o cumprimento do AT. A redenção é um plano antigo de Deus que tem o seu clímax unicamente na pessoa de Jesus Cristo.

Como já vimos, Deus falar não é algo novo. O evangelho se entende no contexto geral da revelação que Deus nos dá. Jesus é a conclusão da história esboçada no AT. Mas a revelação de Deus em Cristo, é, em certo sentido, algo novo. O Evangelho é a conclusão esperada, o cumprimento de muitas promessas e a concretização daquilo que foi tipificado.

Existe uma clara diferença entre um profeta e um filho. Esse Filho, descrito em Hebreus, deve ainda ser reconhecido como tendo caráter divino. Deus já não fala meramente por intermédio de profetas; ele fala por intermédio de um filho – Seu Filho. O filho é a revelação mais plena e completa do Pai, uma vez que Ele compartilha a natureza divina do Pai, sendo a segunda pessoa da Trindade.

Este Filho é descrito como o “herdeiro de todas as coisas”. O escritor usa um conceito tradicional para os judeus disperos. Ser “herdeiro” significa ter autoridade total. Negociar com o filho era negociar com o pai. Lembram de Jesus dizendo que quem conhece o filho, conhece o Pai, em (João 14:6–7)?

6 Jesus respondeu: — Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim. 7Se vocês me conheceram, conhecerão também o meu Pai. E desde agora vocês o conhecem e têm visto.

A frase seguinte, diz que “por meio dEle fez o universo”. Vocês lembram de como começa o evangelho de João? Jo. 1:1-3

1 No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. 2Ele estava no princípio com Deus. 3Todas as coisas foram feitas por ele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez

O Filho é o cumprimento das promessas do AT, Ele é o ápice da redenção na história e é o agente da criação. Jesus é, portanto, o começo e o fim. Ele é o Criador e o cumprimento dos propósitos da criação. Hebreus conecta a criação e a redenção. O Deus que cria é o Deus que redime. Sem uma doutrina correta da criação, teremos uma doutrina errada da redenção. Criação e evangelho são totalmente conectados.

Hb. 1:3: Vendo a Supremacia da Revelação Final de Deus

3 O Filho, que é o resplendor da glória de Deus e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela sua palavra poderosa, depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas alturas,

O v. 3 fala sobre como o Filho nos revela o Pai. A ideia de “resplendor” aponta para o conceito de shekinah da glória no AT. A shekinah era a glória brilhante e visível que demonstrava a majestade de Deus, vista no êxodo (Êx 13:21; 40:34–35) e na dedicação do templo (1Rs 8:10–11).

Olhar para Cristo é a maneira pela qual podemos ver mais plenamente a glória de Deus. Cristo é a expressão exata da natureza do Pai. Cristo compartilha da natureza divina com o Pai como a Segunda Pessoa da Trindade.

É aqui que o Filho divino é diferente de um filho humano. Nenhum filho humano representa exatamente seu pai. Existe uma relação forte, mas não é uma representação exata. Cristo, porém, é uma “representação exata”. Ele e Deus são da mesma essência divina.

Existem inúmeras aplicações para a doutrina da Trindade expressa aqui em Hb. 1. Essa é uma das razões porque não fazemos uso de imagens e ícones. Se cremos nAquele que foi pendurado na cruz, não precisamos pendurar nada nas paredes de nossas igrejas.

Ter uma cristologia trinitária é de vital importância para a saúde da igreja. O autor de Hebreus é claro: só compreendemos Cristo corretamente quando o vemos nesse contexto da história da redenção como o clímax da revelação de Deus e no contexto teológico como a Segunda Pessoa da Trindade.

Como vemos aqui, Jesus não é apenas o agente ativo da criação, mas também quem a preserva. Ele sustenta “todas as coisas pela sua palavra poderosa”. Se o Filho deixar de desejar a existência do universo, o universo deixará de existir. Ele tem o poder de criar e o de preservar. Este é o tipo de poder que Jesus tem conforme Hebreus.

Estas são águas profundas. Como a Trindade funciona é um mistério profundo e glorioso. Um seminarista perguntou a Lutero sobre a natureza de Deus: Lutero respondeu: “Acho que um anjo teria medo de fazer essa pergunta”. Precisamos ter este tipo de reverência em relação à Trindade. O que é revelado, porém, é que o Pai, através do Filho, realizou a criação e continua a sustentá-la.

Há no texto, então, uma transição repentina. Ele passa a tratar da “purificação dos pecados”. Isso revela o quanto a Bíblia conecta a pessoa com a obra de Cristo. A palavra purificação aqui aponta para a obra sacerdotal de Cristo lembrando o sistema sacrificial do AT.

Os capítulos 9-10 vão detalhar melhor o significado de purificação. O autor está introduzindo o termo para nos preparar para o restante da argumentação.

A declaração final destaca a autoridade real de Cristo. Estar “à direita” de alguém é estar em posição de favor e autoridade. Para Cristo estar à direita da “Majestade” nas alturas significa que ele está acima de todos os poderes e governa o cosmos. O lugar de Cristo no céu, à direita de Deus, também nos lembra de seu papel como nosso intercessor, conforme (Rm 8:34).

Em resumo, os três primeiros versículos da Epístola são maravilhosos e tocam nas doutrinas da Revelação, da criação, da Trindade, da relação entre o AT e o NT, de Cristologia e da expiação.

Lembrem-se de como esses versos descrevem a doutrina de Jesus em poucas palavras. Ele é o Filho e a revelação de Deus. Ele é o cumprimento da revelação dada por Deus no AT; Ele é o herdeiro de todas as coisas, o agente da criação, o esplendor da glória de Deus, a expressão exata da natureza de Deus, o preservador de tudo, o purificador e o mediador do povo de Deus.

Essa carta não é água com açúcar. Quem perseverar no seu estudo será recompensado com uma descrição maravilhosa de Jesus. O Cristo que é nosso criador e redentor, que é digno, pois é elevado acima de todas as coisas.

Reflita e discuta

Por que é tão importante lembrar que a mensagem do evangelho começa com a narrativa da criação e os convênios do Antigo Testamento? Você acha que é necessário incorporar o Antigo Testamento nas apresentações do evangelho? Por que ou por que não?

Como o Antigo Testamento estabelece o contexto de como devemos compartilhar o evangelho? Como os primeiros versículos de Hebreus nos ajudam a considerar a relação entre o Antigo Testamento e o evangelho? Esses versículos mudam a maneira como você pensa sobre a apresentação do evangelho? Explicar.

De que maneiras significativas Deus falou ao seu povo no Antigo Testamento? Como essas maneiras se relacionam com a maneira como Deus falou conosco em Jesus Cristo?

De que forma o autor de Hebreus apresenta Jesus Cristo como superior à antiga aliança nos três primeiros versículos da carta? O que a superioridade de Cristo sobre a antiga aliança significa para a antiga aliança?

Como o fato de Deus falar conosco alimenta nossa total confiança nas Escrituras e serve ao nosso conhecimento de Deus e à nossa compreensão de seu caráter? O que isso diz sobre o relacionamento dele conosco?

Como a doutrina da criação afeta a doutrina da redenção? De que forma as duas doutrinas estão inextricavelmente ligadas?

Por que a doutrina da Trindade é uma doutrina tão essencial para a saúde da igreja? Como é que estes versículos ajudam a informar a nossa compreensão da filiação de Cristo?

Como o conteúdo teologicamente rico de Hebreus 1:1–3 impacta a maneira como você vê Cristo? Sua vida cotidiana e sua teologia refletem o valor de Cristo? Explique sua resposta.

Qual dos dois principais erros que discutimos em relação à leitura do Antigo Testamento você acha que é mais prevalente em nossas igrejas e em nossa cultura hoje? Como você pode combater e prevenir a propagação desses erros em sua igreja?

Por que é tão essencial que sejamos estudantes do Antigo Testamento tanto quanto do Novo Testamento? Qual é o perigo de sermos estudantes apenas do Novo Testamento? De que forma o Novo Testamento nos dá ferramentas para ler corretamente o Antigo Testamento?