Hebreus 1:4-14 - Jesus é Superior aos Anjos
03 de março de 2024 • 12 min de leitura

Desde o início do livro, o foco é Cristo. Hebreus é um livro cristocêntrico. Em última análise, o evangelho se resume a três questões: Quem é Jesus? Quais foram as suas obras ou qual foi sua missão? E, por fim, qual é o significado disso para nós?
O autor aos Hebreus aborda no início a pessoa de Cristo e só depois parte para falar do que Cristo fez. Estas duas categorias – pessoa e obra – nos ajudam a apreciar a riqueza de conhecer Jesus na Bíblia. É verdade que pelas obras conhecemos um pouco mais a respeito da identidade de Jesus, mas são conceitos diferentes. Pensar sobre a pessoa e as obras de Jesus nos ajudará a compreender melhor o ensino das Escrituras sobre Cristo.
Temos a tendência de olhar para o que Jesus fez, sem pensar muito sobre quem Ele é. Isto é muito comum no evangelismo. Normalmente começamos a falar sobre o que Cristo fez por nós sem mencionar quem Ele é. Hebreus, no entanto, aponta que existe uma outra abordagem que procura responder à pergunta: “Quem é este Cristo de quem vocês estão falando?”
O autor aos Hebreus fala da identidade de Jesus a partir de um contexto bem amplo, que abrange toda a história desde a criação. A identidade de Jesus se revela dentro da narrativa das Escrituras como um todo. Jesus é apresentado como o clímax das promessas feitas no AT e o cumprimento delas no NT. Jesus cumpre a antiga aliança e é o mediador da nova. Por isso, Ele tem um nome superior a todo o nome.
**O Nome Superior do Filho Hebreus 1:4.**Como já vimos, Hb. 1:1–3 é um belo resumo da narrativa bíblica. Uma narrativa dentro de uma narrativa maior. O trecho aponta para os quatro grandes temas da narrativa bíblica: criação, queda, redenção e consumação, colocando Jesus no centro da História como o Criador, o Redentor e o Rei exaltado. É difícil imaginar um resumo melhor da Bíblia do que os 3 primeiros versículos de Hebreus.
Hebreus 1:4 abre o trecho que vamos estudar e funciona como um versículo de transição. Ele sai do resumo para uma seção maior na qual se explica a superioridade de Cristo em relação aos anjos.
Isso parece estranho para leitores do sec. XXI: Por que gastar tanta tinta para demonstrar que Cristo é superior aos anjos? Isso já não seria óbvio, sendo Ele o criador de tudo? No entanto, no contexto histórico, essa explicação é indispensável para o argumento geral de Hebreus.
A literatura do período intertestamentário – o período entre o AT e o NT, conhecido como Judaísmo do Segundo Templo – focava intensamente nos anjos. Muitas pessoas em Israel consideravam os anjos como mensageiros de Deus e protetores de Israel. Alguns criam que os anjos viriam como um exército enviado por Deus para resgatar e defender a nação.
A literatura do Segundo Templo também inaugura a ideia de “anjos pessoais”, ou o que poderíamos chamar de “anjos da guarda”. Devido a esta fascinação pelos anjos, o autor de Hebreus, escrevendo para um público judeu familiarizado com aquele tipo de literatura, precisava corrigir a compreensão teológica dos destinatários, em especial na relação de Cristo com os anjos.
O autor de Hebreus está preocupado com a possível confusão de seus leitores a respeito de Jesus. Como Jesus “se compatibiliza ” com anjos? Ele seria um deles? Ele seria servo dos anjos? Sim, vamos falar sobre anjos hoje, mas o foco é o de demonstrar a glória superior de Cristo.
O v.4 afirma claramente que Cristo é superior aos anjos. O escritor afirma que Jesus “herdou um nome que é mais excelente do que o dos anjos”. Que nome Cristo herdou? Uma opção é seguir a lógica de Filipenses 2:9-10
Por isso também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome, 10para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, 11e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai.
Paulo afirma que Cristo recebeu o título de “Senhor” um título que pertence ao próprio Deus. Isso não significa que houve um tempo em que Jesus não fosse Deus, uma vez que Ele é Deus desde a eternidade.
Como já vimos no começo de Hebreus, ele é o próprio agente da criação (Hb 1:2; cf. João 1:1), e como Hebreus veremos mais para frente, Cristo só poderia nos salvar como agente da redenção sendo Ele o eterno Filho de Deus. Herdar o “nome” mais excelente de “Senhor” significa, em vez disso, que Jesus Cristo foi designado como o Senhor que reina.
Contudo, o contexto de Hebreus indica que o nome que Jesus herdou é outro. Ele herdou o nome de “Filho”. Novamente, isso não significa que Jesus passou a ser filho em algum momento determinado, uma vez que Ele sempre teve a filiação divina, sendo o eterno Filho de Deus, cf. v.2, mas esse título de Filho aponta para a condição de ser o Messias por filiação, cumprindo as promessas da promessas da aliança davídica (Rm 1:3-4).
3 Este evangelho diz respeito a seu Filho, o qual, segundo a carne, veio da descendência de Davi 4e foi designado Filho de Deus com poder, segundo o Espírito de santidade, pela ressurreição dos mortos, a saber, Jesus Cristo, nosso Senhor.
**O Culto Superior do Filho (v. 5–6)**Os textos aqui não são um mero .estudo devocional em trechos do AT. A Bíblia é inspirada pelo Espírito Santo. Aqui temos uma sequência de comentários do próprio Deus a respeito do AT. Em outras palavras, estamos aprendendo a ler as Escrituras à luz do restante das Escrituras, especificamente à luz do NT. É isso que acontece em Hebreus. Aqui lemos os comentários do ES sobre as Escrituras do AT que Ele inspirou sob a ótica do NT.
As passagens escolhidas do AT são exemplos de cada uma das principais divisões das Escrituras Hebraicas: Salmo 2:7, representa os Escritos,
7 O rei diz: “Proclamarei o decreto do Senhor. Ele me disse: ‘Você é meu Filho, hoje eu gerei você.
2 Samuel 7:14a representa os Profetas
14Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho.
e Deuteronômio 32:43, a Lei. NVT
43 “Alegrem-se com ele, ó céus, e todos os anjos de Deus o adorem. Alegrem-se com seu povo, ó nações, e todos os anjos se fortaleçam nele; Pois ele retribuirá o sangue de seus filhos e se vingará de seus inimigos. Ele dará o troco aos que o odeiam e purificará a terra de seu povo”.
Com uma pergunta retórica, o autor afirma que Deus nunca concedeu o título de Filho a qualquer anjo. Um anjo pode atuar como agente, mensageiro e testemunha, mas não como Filho de Deus.
A citação de 2 Samuel 7 mostra que esta filiação se refere não apenas a Jesus como o eterno Filho de Deus, mas a Jesus como o Filho messiânico – o cumprimento das promessas davídicas.
A citação final, de Deuteronômio 32:43, é particularmente interessante. No seu contexto original, a declaração sobre os anjos curvando-se em adoração refere-se a Yahweh, a quem o escritor de Hebreus agora identifica como Jesus! O argumento é claro.
Os anjos adoram a Cristo; não é Cristo quem adora os anjos. Os anjos declararam o nascimento de Cristo; não é Cristo quem declara o ministério dos anjos. Os anjos não são chamados de filhos, mas esse é o nome que o próprio Cristo, o Messias Davídico, herdou.
O Trono Superior do Filho Hebreus 1:7–12
A citação do Antigo Testamento no versículo 7 vem do Salmo 104:4.
4 Fazes a teus anjos ventos e a teus ministros, labaredas de fogo.
O salmista usa uma linguagem exaltada para descrever as hostes angélicas. São chama de fogo; eles desfrutam da presença de Deus e cumprem seus propósitos. Contudo, eles são apenas “ministros/servos” na corte de Deus.
O contraste fica ainda mais explícito nos versículos 8–11. Yahweh diz que os anjos são apenas servos, mas o Filho é divino (1:8)! As palavras nos versículos 8–9 são do Salmo 45:6–7. Os anjos podem cercar o trono de Deus, mas o Filho está sentado no trono. Anjos podem ser enviados, mas Cristo é o Ungido.
6 O teu trono, ó Deus, é para todo o sempre; cetro de justiça é o cetro do teu reino. 7O senhor, ó rei, ama a justiça e odeia a iniquidade; por isso, Deus, o seu Deus, o ungiu com o óleo de alegria, como a nenhum dos seus companheiros.
A citação nos versículos 10–12 vem do Salmo 102:25–27.
25 Em tempos remotos, lançaste os fundamentos da terra; e os céus são obra das tuas mãos. 26Eles perecerão, mas tu permaneces; todos eles envelhecerão como veste, como roupa os mudarás, e serão mudados. 27Tu, porém, és sempre o mesmo, e os teus anos jamais terão fim.
Novamente, no contexto do AT, esses versículos são sobre Yahweh. No entanto, o Espírito Santo, através do autor de Hebreus, identifica Jesus com Yahweh. A única explicação para isto vem da lógica da teologia da trindade que abraça o texto. A noção de que o Filho lançou os alicerces da terra revisita o fato de que foi “através” do Filho que Deus criou o mundo.
Esta passagem também destaca a distinção entre a criatura e o Criador. O contraste é especificamente entre coisas permanentes e coisas temporais. A criação perecerá. Ela “desgastar-se-á como roupa”. O Filho, por outro lado, não. O Filho é eterno e permanente. Enquanto a ordem criada está sujeita a mudanças, decadência e destruição final, a pessoa de Cristo é interminável e imutável. Seus anos não têm fim. Ele não conhece mudanças.
O Reinado Superior do Filho Hb. 1:13–14. A citação final do AT vem do Salmo 110:1.
1 Disse o Senhor ao meu senhor: “Sente-se à minha direita, até que eu ponha os seus inimigos por estrado dos seus pés.”
O autor termina o seu argumento da mesma forma que o iniciou: com a pergunta retórica: “a qual dos anjos ele jamais disse...?” (cf. 1:5). O Salmo 110 comunica que Yahweh prometeu ao Messias domínio total sobre o mundo. Ele é o singular Filho de Deus. Ele é o agente da criação e da redenção.
Novamente, o versículo 14 traça um contraste entre o Cristo que reina e os anjos ministradores, os servos angélicos. No entanto, também fala do papel dos anjos na vida do povo de Deus. Eles são “espíritos ministradores” enviados para o nosso bem.
Qual é o ministério dos anjos entre o povo de Deus? Falar um pouco sobre “angelologia” pode ser útil aqui, especialmente porque o cristianismo é muitas vezes embaralhado com a visão que a cultura popular tem dos anjos. Os anjos vendidos nas lojinhas de souvenir são fofinhos, gordinhos e parecido com os cupidos de desenho animado. O resultado não poderia ser mais distante do retrato bíblico.
Quando um anjo aparece nas Escrituras, as pessoas caem de puro terror. Pense na resposta dos pastores à visitação angélica em Lucas 2:9.
9 E um anjo do Senhor desceu aonde eles estavam, e a glória do Senhor brilhou ao redor deles; e ficaram tomados de grande temor.
É evidente que precisamos recuperar uma doutrina bíblica sobre os anjos. Tanto o AT, quanto o NT, deixam claro que os anjos são criações de Deus. Embora possam ter privilégios distintos e até poderes extraordinários, eles nunca foram apresentados como divinos. Os anjos residem na assembleia celestial e fazem parte da multidão que adora diante do trono de Deus.
A Bíblia também indica que os anjos são mensageiros de Deus e que cumprem os seus propósitos. Os anjos funcionam como testemunhas de grandes eventos históricos redentivos, como o nascimento de Cristo. Eles também são agentes da justiça de Deus. Após a queda, Deus colocou um anjo com uma espada flamejante na fronteira do jardim do Éden para se vingar de qualquer um que tentasse comer da árvore da vida (Gn 3:24).
O Apocalipse indica que Cristo liderará um exército angelical no último dia para executar o seu justo julgamento no mundo. Hebreus 1:14 sublinha a gloriosa realidade de que, para aqueles que creem em Cristo, anjos são enviados da sala do trono de Deus para trabalhar para o bem da igreja.
Podemos não saber exatamente como os anjos estão envolvidos na guerra espiritual em nome da igreja, mas podemos estar confiantes de que estes agentes do trono de Deus são enviados exatamente para esse propósito. Deus opera todas as coisas para o bem de sua igreja (Rm 8:28). Isto inclui o ministério dos anjos.
No entanto, embora esta passagem nos dê uma compreensão mais clara da função dos anjos nos propósitos de redenção de Deus, não devemos perder o ponto principal. Os anjos são espíritos que ministram ao corpo de Cristo e são, portanto, enviados pelo próprio Cristo.
Os anjos são realmente notáveis. Mas eles são insignificantes em comparação com a glória do Redentor, o Filho de Deus, Jesus Cristo. Ele é superior a todos os anjos – na verdade, a toda a soma de todo o exército de anjos celestiais.
Jesus: o Rei criador digno de adoração Hebreus 1:4–14Ideia Principal: Deus Pai deu a Jesus Cristo o Filho um nome acima de todos os nomes e o direito de reinar eternamente. Todas as coisas foram criadas pelo Filho e por intermédio do Filho – inclusive os anjos – para adorarem e para servirem ao Filho.
I. O Nome Superior do Filho (1:4)
II. A Adoração Superior do Filho (1:5-6)
III. O Trono Superior do Filho (1:7-12)
A. Vendo o Filho como Yahweh
B. Desfrutar do reino eterno do Filho
4. O Reinado Superior do Filho (1:13-14)
A. Adorando o Filho como Rei
B. Conhecendo os anjos como seus servos
Reflita e discuta
Qual é a diferença entre a pessoa de Cristo e a obra de Cristo?
Como o autor do livro de Hebreus nos ajuda na nossa compreensão da pessoa e da obra de Cristo, particularmente em termos de nossas conversas evangelísticas? Quais são algumas das maneiras pelas quais podemos incorporar tanto a pessoa de Cristo quanto a obra de Cristo em nossas conversas sobre o evangelho?
Como o desenvolvimento de uma compreensão mais profunda da pessoa e da obra de Cristo pode ajudá-lo a articular melhor uma imagem abrangente do que as Escrituras ensinam sobre Jesus?
Com base no que você aprendeu até agora, quais são algumas maneiras pelas quais o autor de Hebreus responde às três perguntas apresentadas anteriormente: Quem é Jesus Cristo? Que foi que ele fez? Qual é o significado para nós?
De que forma Jesus Cristo é superior aos anjos? Qual é a sua relação com os anjos?
O autor de Hebreus usou o Antigo Testamento com fluidez. Como isso pode nos ajudar ao lermos o Antigo Testamento à luz de Cristo e do Novo Testamento?
Quais são algumas das maneiras pelas quais o retrato dos anjos apresentado nesta passagem difere do retrato dos anjos apresentado na cultura pop? Como podemos criticar a angelologia da cultura com a angelologia fornecida nesta passagem?
Como os anjos servem ao Filho? Como eles servem e ministram à igreja?
Que coisas em sua vida você considera supremas? Como a realidade da superioridade de Cristo sobre todas as coisas muda a maneira como você vê essas coisas? Como a supremacia de Cristo afeta a maneira como você vive sua vida no dia a dia?
Como o ministério e a guerra espiritual dos anjos em nome da igreja servem de incentivo à sua fé em Cristo?