Hebreus 12:18-24 - Um Reino Inabalável: Do Monte Sinai ao Monte Sião
04 de outubro de 2024 • 15 min de leitura

I. Monte Sinai (12:18–21)
A. A cena no Sinai
B. Uma mudança dramática de cena
II. Monte Sião (12:22–24)
A. Lendo escatologicamente
B. Unindo os anjos e os primogênitos
C. Ouvindo as coisas melhores do sangue de Jesus
Esta passagem é o ponto culminante do livro. Todos os capítulos anteriores preparam para a conclusão do capítulo 12, dos versículos 18 a 29. O próximo capítulo, 13, vai abordar algumas aplicações de fechamento e exortações, da mesma forma como Paulo costumava terminar suas cartas. O clímax do livro de Hebreus começa agora.
Monte Sinai HEBREUS 12:18–21
18 Ora, vocês não chegaram ao fogo palpável e aceso, à escuridão, às trevas, à tempestade, 19ao toque da trombeta e ao som de palavras tais, que aqueles que ouviram isso pediram que não lhes fosse dito mais nada, 20pois já não suportavam o que lhes era ordenado: “Até um animal, se tocar o monte, será apedrejado.” 21Na verdade, o espetáculo era tão horrível, que Moisés disse: “Estou apavorado e trêmulo!”
O que lemos até aqui, exigia que os leitores desta carta olhassem para o passado. O trecho tem como âncora o que vimos nos v. 12 a 15. A seção inteira explica o porquê de os cristãos poderem levantar as mãos cansadas, fortalecer os joelhos vacilantes e fazer caminhos retos para os seus pés. Eles podem fazer estas coisas por que eles não caminham para o Monte Sinai, mas para um monte melhor, para o monte Sião.
A cena no Sinai:
Você lembra do que aconteceu no monte Sinai? O autor convida seus leitores a olharem novamente para o Antigo Testamento.
A frase "vocês não chegaram ao monte que se podia tocar” inicia o texto na versão NVI. Eles primeiro chegaram a um monte que não podia ser tocado. Isso nos remete a Êxodo 19:12:
12 Marque ao redor do monte limites para o povo, dizendo: “Tomem cuidado para não subir o monte, nem tocar a sua extremidade. Todo aquele que tocar o monte será morto.
O Monte Sinai foi o local que Moisés escalou para receber a lei de Deus em nome de Israel. O Senhor ordenou a Moisés que avisasse o povo de Israel para não subir a montanha, nem mesmo tocá-la.
Eles não podiam tocar no Monte porque a presença de Deus consagrava aquele lugar e povo pecador dele não podia se aproximar sem a autorização divina. Qualquer pessoa ou animal que tocasse o monte deveria ser apedrejado ou flechado.
Quando o Senhor se fez especialmente presente naquele lugar, diversas coisas espetaculares aconteceram. O monte foi coberto com uma nuvem espessa, dentre outros sinais. Vejamos o que diz: Ex.19:16-18:
16 Ao amanhecer do terceiro dia, houve trovões e relâmpagos, uma espessa nuvem cobriu o monte, e ouviu-se um forte som de trombeta, de maneira que todo o povo que estava no arraial tremeu de medo. 17E Moisés levou o povo para fora do arraial ao encontro de Deus; e puseram-se ao pé do monte. 18Todo o monte Sinai fumegava, porque o Senhor havia descido sobre ele em fogo. A fumaça subia como fumaça de uma fornalha, e todo o monte tremia com violência.
Nuvem, sons altíssimos, fumaça, sinais de fogo, terremotos. Era como uma espécie de iminência de uma erupção vulcânica. Tudo isso demonstrava que Deus estava especialmente presente ali. Os fenômenos indicavam o poder, a força, a pureza da santidade divina. Aquele lugar era um lugar de admiração e de terror para Israel. Diante daquele cenário, eles tremiam de medo. Foi nesse monte intocável que eles chegaram.
Os v. 19–20 continuam narrando as reações do povo naquele encontro impossível e seus efeitos sobre o povo:
19ao toque da trombeta e ao som de palavras tais, que aqueles que ouviram isso pediram que não lhes fosse dito mais nada, 20pois já não suportavam o que lhes era ordenado: “Até um animal, se tocar o monte, será apedrejado.”
Quando Deus fala do meio da nuvem de fumaça, o povo ficou com muito medo e implorou para que Moisés fosse o representante deles, conforme Ex. 20:18-19:
18 Todo o povo presenciou os trovões, os relâmpagos, o som da trombeta e o monte fumegante; e o povo, observando, tremeu de medo e ficou de longe. 19Disseram a Moisés: — Fale-nos você, e ouviremos; porém não fale Deus conosco, para que não morramos. 20Moisés respondeu ao povo: — Não tenham medo; Deus veio para provar vocês e para que o seu temor esteja diante de vocês, a fim de que não pequem.
Como eu mencionei, eles foram ordenados a apredrejar até animais que tocassem no Monte. A severidade e a solenidade apontavam para o custo de alguém impuro estar na presença de Deus. Os israelitas temiam por suas vidas. Aquela cena apontava que a presença de Deus no Sinai diante do povo era aterrorizante.
O próprio Moisés temeu, conforme o v.21:
21 Na verdade, o espetáculo era tão horrível, que Moisés disse: “Estou apavorado e trêmulo!”
O Monte Sinai era como uma área VIP em um evento de alta classe, onde a entrada é permitida apenas para os convidados especiais. Mesmo aqueles que têm o convite precisam seguir todas as regras à risca para permanecer. No Monte Sinai, a presença de Deus estava acessível, mas o convite era extremamente restrito – qualquer um que se aproximasse sem permissão ou falhasse em cumprir as exigências da santidade de Deus era imediatamente rejeitado. Isso nos mostra o quão sério e inacessível era estar diante da glória divina sem um mediador.
Depois de relembrarmos a cena aterrorizante no Monte Sinai, o autor de Hebreus nos convida a experimentar uma mudança surpreendente e maravilhosa – do medo da Lei para a alegria da graça.
Então há uma mudança dramática de cena
Os israelitas foram conduzidos para um lugar aterrorizante, ao monte Sinais Mas os cristãos foram conduzidos para uma outra montanha, para o Monte Sião.
A antiga aliança no Sinai nos mostra a distância causada pelo pecado, mas agora, a nova aliança nos leva para mais perto de Deus, não em temor, mas em confiança e liberdade por meio de Cristo.
A palavra “não” no versículo 18 é a chave para entender a diferença radical entre a nossa experiência com Deus e a experiência que Israel teve com Ele. O “Não” faz um contraste gritante entre a antiga e a nova aliança, entre a lei e a graça, entre a promessa e o cumprimento.
A afirmação que os cristãos chegaram ao Monte Sião deve ter chocado os leitores originais desta carta. Os judeus definiram sua história e a si mesmos a partir do Sinai. Aquele monte é onde os israelitas encontraram Deus, mas não é onde nós encontramos a Deus na nova aliança.
Esse é o ponto que o autor quer transmitir ao retratar a temível experiência que os israelitas vivenciaram aos pés do Monte Sinai. A ideia é contrastar o quadro aterrorizante do Sinai com a realidade graciosa e gloriosa da nova aliança.
O terror do Sinais não é nossa experiência. Nossa experiência com Deus tem por base a misericórdia radical do Monte Sião. Em Sião, Deus nos abraça com sua graça e nos cerca com um pacto que não foi gravado em tábuas de pedra, mas gravada nos nossos corações.
Monte Sião HEBREUS 12:22–24
22 Pelo contrário, vocês chegaram ao monte Sião e à cidade do Deus vivo, a Jerusalém celestial, e a milhares de anjos. Vocês chegaram à assembleia festiva, 23a igreja dos primogênitos arrolados nos céus. Vocês chegaram a Deus, o Juiz de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados, 24e a Jesus, o Mediador da nova aliança, e ao sangue da aspersão, que fala melhor do que o sangue de Abel.
A geografia bíblica mostra que o Monte Sião fica nos arredores de Jerusalém. O Monte Sião é tão identificado com Jerusalém que se tornou um sinônimo para aquela cidade. Aqui, no entanto, o autor não conecta o Sião geográfico com a Jerusalém terrena; ele está ligando o que aconteceu em Sião com a Nova Jerusalém, a Jerusalém celestial, escatológica. O autor deseja enfatizar o que Sião representa. Sião representa promessa e paz.
Há um contraste entre a paz de Sião e o terror do Sinai. Cristo cumpriu perfeitamente a Lei dada no Sinai. Ele recebeu em si a ira do Sinai. Os cristãos não chegam mais ao Sinai porque Cristo cumpriu perfeitamente o que o Sinai representava e exigia.
Os cristãos não se achegam ao Sinai, pois Cristo cumpriu a lei do Sinai. Jesus não anulou ou invalidou a lei do Antigo Testamento. Pelo contrário: Ele fez o que nenhum humano caído poderia fazer: ele obedeceu e cumpriu a lei perfeitamente.
Jesus cumpriu os termos e o espírito da Lei. A obediência dele não foi só externa, foi também interna. Ele cumpriu a lei no comportamento e no coração.
Por causa da obra de Cristo, Assim, por causa da obra de Cristo, o Sinai agora se ergue como um monte de uma aliança observada. O cumprimento da aliança do Sinai ocorreu em Sião, em Jerusalém. Foi nos arredores daquela cidade, que Jesus realizou a obra salvadora da sua morte vicária e ressurreição. O povo de Deus não se identifica mais com o lugar em que a Lei foi dada, mas com o lugar em que ela foi satisfeita.
**Leitura escatológica:**uma leitura correta dos v. 22 e 23 precisa analisar que vivemos no tempo do Já e do ainda não que percorre todo o NT. O reino de Deus foi inaugurado (já), mas não está consumado (ainda não). Em outras palavras, nós já podemos experimentar, ainda que parcialmente, o cumprimento das promessas de Deus, enquanto aguardamos pela versão completa das promessas da nova criação. Nós experimentamos esta tensão entre esta era e a era vindoura.
Esta linguagem não é nova em Hebreus. Lembram do cap. 2:8?
8 Todas as coisas sujeitaste debaixo dos seus pés.” Ora, ao lhe sujeitar todas as coisas, nada deixou fora do seu domínio. Neste momento, porém, ainda não vemos todas as coisas a ele sujeitas
O autor está usando da mesma ideia aqui nos v. 22-23. De fato, ainda não temos a experiência completa de chegar em Sião, mas é uma realidade prometida e garantida. Assim, já chegamos à cidade do Deus vivo, mas essa realidade ainda não é totalmente completa. Em outras palavras, já chegamos a Sião, mas ainda estamos esperando para chegar lá.
Nossa jornada de esperança deve impactar como lidamos com os desafios presentes – desde decisões financeiras até a criação dos filhos – sabendo que temos uma herança incorruptível no Reino inabalável."
Pensar em termos escatológicos, do fim de todas as coisas, também nos ajuda a entender a palavra cidade. A cidade é um tema importante no reino de Deus. Deus reina, mas não em qualquer lugar. Ele reina a partir da "cidade do Deus vivo".
Falar desta cidade é falar da futura sede do reino. Assim como Jerusalém era a capital de Israel, e a capital religiosa do mundo ainda hoje, a Jerusalém celestial será a capital do reino de Deus. Ao chegar a Sião, chegamos à principal cidade do reino de Deus e lá reinaremos junto com anjos e com os primogênitos.
Com quem nos encontraremos lá? Nós iremos nos reunir numa assembleia festiva composta por anjos. É algo que não conseguimos ainda conceber. A cidade do Deus vivo que desce dos céus é repleta de anjos que refletem a glória de Deus. Como descrever isso? Mas é exatamente isso que aguarda aqueles que perseveram até o fim.
Lembre-se que logo no início de Hebreus, Jesus foi apresentado como superior aos anjos e com um nome mais excelente. Isso exalta Cristo, mas não diminuiu a importância dos anjos. Eles são criaturas magníficas que irradiam a glória de Deus e testemunham sobre a salvação de Deus em Cristo.
Na Jerusalém celestial, miríades de anjos se reunirão alegremente para celebrar e adorar o Senhor. Chegaremos a uma cidade com dezenas de milhares de anjos em reunião festiva. Nós nos uniremos a eles na cidadania eterna e na adoração eterna a Deus.
Quem é “a igreja dos primogênitos cujos nomes estão escritos nos céus”? O autor pode estar fazendo menção aos galeria da fé que confiaram em Jesus mesmo antes de sua encarnação. Mas em outro sentido, a assembleia dos primogênitos é muito maior. Hebreus 12:1 afirma que há uma grande nuvem de testemunhas.
Todos aqueles que foram fieis a Deus às suas promessas mesmo antes de Cristo vir compõem esta grande nuvem de testemunhas. Além deles, o autor afirma que seus leitores e os crentes de hoje estão unidos pela fé com os que vieram antes deles.
Porque já fazemos parte desta Jerusalém celestial, fazemos parte desta igreja triunfante. Os que estão em Cristo já pertencem a esta membresia eterna da igreja dos primogênitos arrolados no céu. Esta é a igreja eterna e a igreja universal, e é a igreja com a qual fomos unidos.
**Chegar Diante do Juiz e dos Espíritos dos Justos.**O v. 23 diz que já chegamos na presença do próprio Deus, Juiz de todos. Imagine o dia em que todos os seres humanos serão julgados. Imagine experimentar o terror de estar diante do Deus que fez o monte Sinai tremer e fumegar sem estar coberto pelo sangue de Cristo. O Dia do Senhor será um dia de horror absoluto que será seguido pelo inferno.
Mas aqueles que confiaram em Cristo, em arrependimento, fé e descanso, experimentarão naquele Dia, ao invés da condenação, um dia de glória absoluta. A eternidade na presença do Deus que é justo, gracioso e misericordioso estará logo em seguida. O autor fala deste dia como se já estivéssemos lá. Já estamos diante de Deus, o Juiz de todos. Já estamos diante de seu trono.
Finalmente, o escritor diz que seus leitores chegaram aos “espíritos dos justos aperfeiçoados”. Todos na Nova Jerusalém serão perfeitamente santos. Não há espaço para iniquidade na assembleia celestial. A questão é que todos serão justificados, aperfeiçoados pela justiça de Cristo. Toda nossa justiça e perfeição depende de recebermos a justiça que Cristo obteve. A perfeição dele é a nossa. A justiça dEle é nossa justiça. Não há justiça própria em Sião, há justiça imputada, justiça de Cristo.
**O melhor sacrifício:**A lista das coisas a que tivemos acesso e teremos plenamente culmina na pessoa de Cristo.
24e a Jesus, o Mediador da nova aliança, e ao sangue da aspersão, que fala melhor do que o sangue de Abel.
A obra sacerdotal de Jesus é o fundamento da Nova Jerusalém. Nada melhor do que terminar esta lista olhando para o sangue de Cristo. A lista dos heróis da fé começa com Abel, em Hb. 11:4.
Deus se agradou do sacrifício de sangue e da obediência de Abel. A obediência de Abel provou que ele tinha fé em Deus e cria na sua Palavra. Mas a salvação de Abel não veio pelo sacrifício que ele ofereceu, pois o sangue de animais não pode salvar. O sacrifício de animais apazigou apenas temporariamente a ira de Deus, mas eles não satisfizeram plenamente a ira de Deus contra o pecado.
O sangue de Cristo, no entanto, fez o que o sacrifício de animais jamais poderia fazer. O sangue de Cristo é suficiente para perdoar pecados e nos salvar da ira que pecadores merecem.
Por essa razão, Jesus é o mediador de uma nova e melhor aliança. Por seu sacrifício e somente por seu sacrifício, chegamos a Sião e ao sangue aspergido que fala melhor que o sangue de Abel.
O sangue aspergido de Cristo fala, responde melhor a Deus, do que o de Abel porque o sangue de Jesus salva. Ele lava completamente nossos pecados e satisfaz a ira de Deus de uma vez por todas.
Este trecho é como uma poesia que afirma que não precisamos ir para o monte antigo. O Sinai sai de cena porque a antiga aliança foi cumprida. Chegamos a um novo monte e a uma aliança melhor, chegamos em Sião. Deus não nos chama para um monte que não podemos nem tocar. Ele nos chama para um Salvador, um Salvador que chamou Tomé para colocar o dedo em suas feridas.
Cristo cumpriu a Lei e inaugurou uma nova. A nova lei não nos condena, nem nos julga. O sangue superior de Cristo nos garante uma herança eterna e perdão total de pecados. Seu sangue nos leva a Sião e à presença do Deus vivo. Essas são coisas realmente melhores.
Este sermão nos convida a relembrar o contraste entre o Monte Sinai e o Monte Sião. Enquanto o Sinai era um lugar de medo e inacessibilidade, o Monte Sião nos convida a nos achegarmos a Deus com confiança, por causa do sangue de Jesus. Somos chamados a viver relacionamentos marcados pela graça, praticando o perdão, e a lembrar que, em Cristo, já fazemos parte da Jerusalém celestial. Que possamos sair daqui hoje sabendo que não estamos mais diante do monte do medo, mas do monte da graça – o Monte Sião.
Reflita e discuta
Como esta passagem se relaciona com 12:12–17? Como o fato de você não ter vindo ao Sinai o ajuda a colocar em ação os imperativos do autor nos versículos 12–17? Pense em cada imperativo em particular.
Por que o escritor justapõe o Monte Sinai com o Monte Sião?
Como o autor usa o comando de apedrejar um animal para extrair a severidade da cena no Sinai? Como Jesus substituiu esse comando na nova aliança?
Em suas próprias palavras, explique por que o uso da palavra não no versículo 18 é tão crítico para entender esta passagem e nosso relacionamento com Deus na nova aliança.
Por que o Sinai não é mais a montanha na qual os cristãos definem sua experiência com Deus? Em que base os cristãos agora vêm a Sião?
Como os cristãos devem pensar na antiga aliança à luz do cumprimento dela por Cristo?
Explique por que uma leitura adequada dos versículos 22 e 23 requer uma leitura através das lentes da tensão já-ainda não.
Qual é o significado de conectar Sião à nova Jerusalém escatológica? Como o uso da palavra cidade pelo autor influencia esse significado? O que isso nos diz sobre o reino de Deus?
Por que o sangue de Jesus é superior ao sacrifício de sangue oferecido por Abel? Por que o autor compara o sangue oferecido por Abel com o sangue oferecido por Jesus?
Como a imagem gloriosa de Sião nesta passagem ajuda você a perseverar na fé? Por que você acha que o escritor escolheu usar essa imagem para motivar seus leitores a perseverar até o fim?