Hebreus 9:1-10 - O Antigo Tabernáculo e Suas Limitações
28 de junho de 2024 • 10 min de leitura

As pessoas tendem a confiar mais naquilo que podem ver e tocar. Tem gente que se sente mais seguro com dinheiro em caso do que no banco. Durante a guerra, percebeu-se que crianças dormiam melhor se estivessem segurando um pedaço de pão. Esta tendência humana de precisar ver para crer pode explicar por que os israelitas tinham tanto apego pela antiga aliança, que envolvia tantos rituais práticos e visíveis.
É verdade que Deus iniciou a revelação do plano de redenção por intermédio da antiga aliança. Essa aliança era muito visual, tangível. Nela, o povo enxergava literalmente o sacrifício, o derramar de sangue de animais. O povo participava ao trazer os sacrifícios, vê-los serem imolados, assistindo o sangue correr e a carne queimar.
Eles viram e tocaram. Com isso, eles obtinham uma convicção de que ofertas de sacrifício foram feitas e experimentavam mais certeza de que seus pecados haviam sido temporariamente expiados. Esse quadro era ainda mais intenso no Dia da Expiação, dia no qual se ofereciam sacrifícios em favor de pecados inconscientes do povo.
A nova aliança fala sobre o sacrifício de Cristo no templo celeste. Todo o livro de Hebreus, mas, especialmente os cap. 8 e 9, mostram que essa obra é fundamentalmente superior à realizada pelos sacerdotes no tabernáculo terrestre. A obra espiritual feita por Cristo tem muito mais valor do que a obra feita no tabernáculo terrestre porque ela satisfez de forma plena e final a ira de Deus.
Para reforçar essa diferença, o autor analisa as regras para construção do tabernáculo terrestre e dos sacrifícios. As limitações desse sistema e nossa tendência de confiar em coisas que podemos ver e tocar preparam o cenário para Hb 9:1–10. O autor quer arrancar do coração a esperança depositada no passado e mostrar como essas práticas da antiga aliança devem ser vistas à luz de Cristo.
A prefiguração da adoração de Deus na Nova Aliança Hb 9:1–5
O tabernáculo serviu como morada temporária de Deus entre os israelitas após o êxodo. Os detalhes exatos das ordens dadas para sua construção estão em Êxodo 25–30.
Essas regras mostram que Israel deveria adorar de forma diferente dos outros povos. Os povos vizinhos inventavam formas para retratar qualquer falsa divindade que desejassem honrar (como visto em Jeremias 10), mas Israel foi proibido de especular, de inovar ou de experimentar qual seria o tipo de templo e de objetos de que Deus se agradaria.
1 Ora, a primeira aliança também tinha preceitos de culto divino e o seu santuário terrestre. 2 Porque foi edificado um tabernáculo, cuja parte da frente, onde estavam o candelabro, a mesa e os pães da proposição, se chama o Santo Lugar. 3 Por trás do segundo véu se encontrava o tabernáculo que se chama o Santo dos Santos, 4 ao qual pertencia um altar de ouro para o incenso e a arca da aliança totalmente coberta de ouro, na qual estava uma urna de ouro contendo o maná, o bordão de Arão, que floresceu, e as tábuas da aliança. 5 Sobre a arca estavam os querubins de glória, que, com a sua sombra, cobriam o propiciatório. Mas dessas coisas não falaremos, agora, com mais detalhes.
As regras antigas para adoração. No versículo 1, o autor lembra aos seus leitores que a primeira aliança tinha preceitos específicos relativos ao culto divino. Deus prescreveu deveres específicos, mobiliário, forma e o lugar para o culto acontecer.
Ao contrário dos povos vizinhos, os israelitas não podiam adorar seu Deus como quisessem. O único Deus vivo e verdadeiro ordenou, de forma específica, como e onde Israel deveria adorá-lO. Seus preceitos de culto foram expressamente descritos. A falha em observar tais preceitos trazia graves consequências (Levítico 10:1-2).
1 Nadabe e Abiú, filhos de Arão, tomaram cada um o seu incensário, puseram fogo dentro deles, e sobre o fogo colocaram incenso; e trouxeram fogo estranho diante da face do Senhor, algo que ele não lhes havia ordenado. 2 Então saiu fogo de diante do Senhor e os consumiu; e morreram diante do Senhor.
O tabernáculo era central da adoração na Antiga Aliança até a construção do templo. É por isso que o autor se refere a ele como o “santuário terrestre”. Era ali que o culto acontecia. Sacrifícios e intercessão em favor do povo. Os olhos de Israel se voltavam para lá.
A nova aliança, contudo, não tem mais como foco um tabernáculo físico. Hoje, já não existe um local específico de adoração exigido por Deus. Visto que o Espírito nos une a Cristo pela fé, os cristãos adoram o Pai “em espírito e em verdade” (João 4:24).
24 Deus é Espírito, e é necessário que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade.
João descreve a encarnação de Cristo usando uma linguagem que remete ao tabernáculo: "O Verbo se fez carne e habitou entre nós" (João 1:14). Na Nova Aliança, o centro da adoração não está mais em um lugar, mas em uma pessoa: Jesus Cristo.
O Tabernáculo
2 Porque foi edificado um tabernáculo, cuja parte da frente, onde estavam o candelabro, a mesa e os pães da proposição, se chama o Santo Lugar. 3 Por trás do segundo véu se encontrava o tabernáculo que se chama o Santo dos Santos, 4 ao qual pertencia um altar de ouro para o incenso e a arca da aliança totalmente coberta de ouro, na qual estava uma urna de ouro contendo o maná, o bordão de Arão, que floresceu, e as tábuas da aliança. 5 Sobre a arca estavam os querubins de glória, que, com a sua sombra, cobriam o propiciatório. Mas dessas coisas não falaremos, agora, com mais detalhes.
Nos versículos 2–5, o autor descreve os detalhes que deveriam ser observados para a edificação do tabernáculo. Essa descrição está em 13 cap. de Êxodo (25–31; 35–40). O tabernáculo refletia a santidade de Deus, comunicando sua transcendência, perfeição e retidão. Ele era um lembrete claro da aliança feita com Israel no Sinai.
Dentro da tenda estavam o Santo Lugar e o Santo dos Santos. No Santo Lugar ficavam o candelabro, a mesa e os pães da proposição (Êxodo 25:30). No Santo dos Santos, havia o altar de ouro para incenso, a arca da aliança com sua urna de ouro contendo o maná, o bordão de Arão que floresceu e as tábuas da aliança.
Esses itens simbolizavam grandes atos de redenção, a fidelidade à aliança e a santidade de Deus, cada um comunicava significados específicos.
O cajado de Arão que floresceu lembrava como Deus sustentou seu povo no deserto e escolheu a família de Arão para o sacerdócio (Números 17:1-13).
As tábuas lembravam a aliança de Deus com o povo e a responsabilidade de obediência à sua Lei. A urna de ouro contendo o maná testemunhava como Deus sustentou Israel durante quarenta anos no deserto (Êxodo 16:31-34). A arca, por fim, simbolizava o amor pactual e a fidelidade de Deus para com Israel.
O autor menciona o altar de incensodescrito em Êxodo 30:6, que simbolizava a presença de Deus no lugar santíssimo. No Dia da Expiação, esse altar era ungido com o sangue da oferta pelo pecado, tornando-se altar santíssimo. A queima do incenso e a aspersão de sangue, conforme Levítico 16:12-13, eram essenciais nesse dia.
O autor também menciona a presença dos querubins e do ouro no lugar santíssimo. Os querubins, criaturas celestiais com tarefas específicas designadas por Deus (Gênesis 3:24), cobriam o propiciatório e guardavam a presença de Deus. No mundo antigo, o ouro era a mercadoria mais valiosa conhecida. A composição dourada desses itens simbolizava o valor infinito do céu e da adoração celestial.
Os cristãos judeus a quem esta carta foi escrita entendiam que o Santo Lugar e o Santo dos Santos eram onde Deus se encontrava com o seu povo. Eles eram tentados a ver esses itens, sons e cheiros como a realidade última da fé. Mas qual era o problema? A nova aliança torna obsoleta a antiga aliança (Hebreus 8:13).
13 Quando ele diz “nova aliança”, torna antiquada a primeira. Ora, aquilo que se torna antiquado e envelhecido está prestes a desaparecer.
Embora essa realidade fosse transitória, o autor não menospreza aqueles objetos da antiga aliança. Ele os dignifica, mostrando como apontavam para realidades mais profundas.
O fim do acesso mediado a Deus Hebreus 9:6–10
A passagem então muda o foco do mobiliário, dos móveis, no tabernáculo para o ministério dos sacerdotes. Ao fazer a mudança, o autor descreve as estipulações para os sacerdotes nos lugares santos e as deficiências no seu trabalho.
6 Ora, depois que foram feitos todos esses preparativos, os sacerdotes entram continuamente no primeiro tabernáculo para realizar os serviços sagrados. 7 Mas, no segundo, o sumo sacerdote entra sozinho uma vez por ano, não sem sangue, que oferece por si e pelos pecados de ignorância do povo.
O Ministério dos Sacerdotes Os sacerdotes realizavam continuamente seus serviços sagrados de sacrifício no Santo Lugar. Na segunda parte, o Santo dos Santos, contudo, apenas o sumo sacerdote podia uma vez por ano, no Dia da Expiação. Ele levava sangue para expiar seus próprios pecados e os do povo (Levítico 16).
O que o autor quer dizer com “os pecados de ignorância do povo”? Geralmente dividimos os pecados em duas categorias: pecados deliberados, ou “pecados de comissão”, que são atos de desobediência, e “pecados de omissão”, que são falhas em cumprir o que Deus ordena. Ambos são pecaminosos aos olhos de Deus.
Contudo, o autor identifica uma terceira categoria de pecado que muitos cristãos não percebem: pecados cometidos por ignorância ou sem intenção. Esses pecados são cometidos sem que tenhamos consciência, fruto dos efeitos profundos e generalizados do pecado em nosso ser. São esses pecados não intencionais que exigiam o ministério do sumo sacerdote e a oferta de sacrifícios de sangue.
O que o Espírito Santo estava indicando?
8 Com isto o Espírito Santo quer dar a entender que o caminho do Santuário ainda não se manifestou, enquanto o primeiro tabernáculo continua erguido.
Observe que o sumo sacerdote só entrava para oferecer sacrifícios uma vez por ano pelos pecados não intencionais do povo. No entanto, o autor afirma que o Espírito Santo estava comunicando algo através dessa repetição anual: "o caminho do Santuário ainda não havia se manifestado enquanto o primeiro tabernáculo continuasse erguido."
Recordemos a distinção entre o Santo Lugar e o Santo dos Santos. No Santo Lugar eram apresentadas as ofertas regulares do sistema sacrificial, enquanto o sumo sacerdote entrava no Santo dos Santos apenas no Dia da Expiação, para espargir sangue sobre o propiciatório da arca da aliança.
A periodicidade anual e a separação pelo véu demonstravam que os pecadores não podiam se aproximar diretamente de um Deus santo. A aproximação era ocasional e delicada, e a necessidade de repetição anual indicava a chegada de uma realidade superior.
Por isso, o autor afirma que o Espírito Santo usou a própria arquitetura do tabernáculo para apontar a necessidade de um sacrifício perfeito. Enquanto houvesse uma separação entre o Santo Lugar e o Santo dos Santos, simbolizada pelo véu, o povo não poderia estar plenamente na presença de Deus. O véu indicava incompletude e a incapacidade de se aproximar de Deus.
Na nova aliança, não precisamos mais diferenciar o Lugar Santo do Santo dos Santos. Quando Cristo clamou: “Está consumado”, o véu que separava esses ambientes rasgou-se de alto a baixo. Deus anunciou ao mundo que as pessoas podem ir à sua presença pela fé na obra consumada de Cristo. Não precisamos mais de mediadores; temos acesso direto ao trono de Deus através de Cristo.
Ofertas imperfeitas
9 Isso é uma parábola para a época presente, na qual se oferecem dons e sacrifícios, embora estes, no que diz respeito à consciência, sejam ineficazes para aperfeiçoar aquele que presta culto, 10 pois não passam de ordenanças da carne, baseadas somente em comidas, bebidas e diversas cerimônias de purificação, impostas até o tempo oportuno de reforma.
As ofertas e sacrifícios oferecidos eram necessários para conter a ira de Deus, mas o v. 9 afirma que eles eram ineficazes para aperfeiçoar a consciência do adorador.
Aqueles sacrifícios não podiam sondar as profundezas nem mudar o coração das pessoas. Os atos de adoração no tabernáculo eram puramente externos, não passava de ordenanças da carne.
Eles tratavam apenas de realidades palpáveis, como comida, bebida, lavagens diversas e cerimônias de purificação. Tanto eles quanto nós precisávamos de algo mais: atos de adoração que tratassem das questões internas do coração.
O autor de Hebreus mostra que nem mesmo o mais elevado dos sacrifícios – o do sumo sacerdote no Dia da Expiação no Santo dos Santos – podia limpar a consciência do adorador ou trazer novidade de vida. Por isso, os sacrifícios continuaram a ser oferecidos em Israel, pois não proporcionavam a purificação total do pecado. Assim que um sacrifício era feito, já havia necessidade de outro.
O contraste não poderia ser mais claro. Embora a antiga aliança exigisse ofertas incessantes e imperfeitas que não podiam purificar as profundezas do coração humano, Cristo realizou a purificação final e completa. Jesus é a esperança da nova aliança. Quando ele apareceu como sumo sacerdote (Hebreus 9:11), tudo mudou.