Jeremias 15:10-21 - Da Desilusão ao Arrependimento
28 de junho de 2025 • 13 min de leitura

I. Reclamar pode levar à desilusão (15:10-14).
II. Reclamar pode levar à amargura e ao ressentimento (15:15-17).
III. Reclamar pode levar à autopiedade (15:18).
IV. Como Deus responde à autopiedade (15:19-21)?
A. Uma condição (15:19)
B. Uma promessa (15:20-21)
Eu sou um reclamão. Já fui muito mais, mas tenho me policiado para ter um coração mais grato. Reclamar é ruim. Percebemos isso quando reclamam de nós, justa ou injustamente. A reclamação revela um coração autoorientado. Reclamar ou murmurar indica que as circunstâncias da vida não atendem às minhas expectativas sobre as pessoas e sobre as coisas. Quando isso acontece, e eu não percebo minha posição autocentrada, verbalizo minha insatisfação e discordância com a vida.
Como pais amorosos, amigos e atenciosos, temos a responsabilidade de ensinar nossos filhos a não reclamar. Não é simples, especialmente quando também reclamamos com frequência. Essa responsabilização por si e pelos outros é desconfortável, mas precisamos lembrar que a murmuração levou o povo de Deus a um lugar de autopiedade e de juízo por Deus no deserto. Nós corremos o mesmo perigo.
Jeremias está preso nesse redemoinho de murmuração. Suas reclamações estão lhe conduzindo para à autopiedade. Essa situação traz algumas perguntas importantes:
Primeiro, reclamar é justificado? A resposta depende do ponto de vista de quem sente o problema. Brincamos com nossos problemas de “primeiro mundo": minha conexão de internet está péssima, meu computador está lento, minha impressora deu pau, meu carro pifou... Essas queixas dificilmente são justificáveis quando comparadas com o sofrimento espalhado pelo mundo. No mínimo, essas reclamações são imprudentes.
Isso levanta a segunda questão: Como isso é tratado nas Escrituras? Como já vimos em outras interações, tanto em Jeremias como em outros lugares, as Escrituras registram muitas queixas. Isso nos ajuda a compreender a perfeição e o alcance das Escrituras. A Bíblia registra as queixas de forma muito livre, sem julgar quem reclama. Então, o que Deus faz quando reclamamos?
**Contexto:**Certamente nós nos simpatizamos com a queixa de Jeremias. Ele foi enviado como profeta numa missão muito difícil. Ele deveria pregar, reapresentar a Palavra de Deus, para um povo que não amava a Deus e que não queria, nem iria ouvir o que o profeta diria. Lembram das muitas referências aos falsos profetas? Elas sinalizam que o povo escolheu trocar os verdadeiros por aqueles que falavam o que eles queriam ouvir.
Jeremias tinha uma “concorrência” muito forte. De fato, Deus o havia chamado para "para arrancar e derrubar, para destruir e arruinar, e também para edificar e plantar", conf. Jer. 1:10. Sua missão tinha o dobro de verbos negativos em comparação com os positivos. Poucos, se é que houve quem quisesse, desejaram ouvir a mensagem de Jeremias. É muito bom saber (mas também pode ser perigoso) saber que Deus vai ouvir e vai responder às queixas de Jeremias.
Wright identifica neste texto três fontes para as reclamações de Jeremias: a desilusão, a amargura e ressentimento, e, por fim, a autopiedade. Será que temos reclamado com Deus baseado nas mesmas dores? O que precisamos aprender com Jeremias?
Reclamar Pode Levar à Desilusão: 15:10-14
10 Ai de mim, minha mãe! Porque você me pôs no mundo para ser homem de rixa e homem de discórdias para toda a terra! Nunca lhes emprestei, nem pedi dinheiro emprestado, mas todos me amaldiçoam.
A queixa geral de Jeremias é que ele é a fonte de “rixas e de discórdias” (v. 10). Isso é intensificado pelo fato de que ele não fez nada de errado. Ele não prejudicou ninguém pessoalmente, mas ainda assim o amaldiçoam. Na verdade, ele lamenta o dia do seu nascimento. Isso é interessante porque ele foi chamado no ventre de sua mãe, (1:4-5):
4 A palavra do Senhor veio a mim, dizendo: 5“Antes de formá-lo no ventre materno, eu já o conhecia; e, antes de você nascer, eu o consagrei e constituí profeta às nações.”
Será que Jeremias, no v.10, estaria de forma dissimulada rejeitando seu chamado? Ele não está apenas reclamando do que está acontecendo agora, mas ele reclama da origem da situação: ele está reclamando do seu chamado para um ministério difícil. O sentimento do texto não é o de uma mera queixa, parece mais com uma desistência, com o desejo de abandonar seu chamado e de ir fazer outra coisa qualquer.
Deus responde graciosamente à queixa de Jeremias de duas maneiras. Primeiro, ele afirma sua proteção a Jeremias (v. 11). Deus cuidará dele, embora seus inimigos sejam fortes e numerosos.
11 O Senhor disse: — Na verdade, eu o fortalecerei para o bem e farei com que o inimigo lhe dirija súplicas no tempo da calamidade e no tempo da aflição.
Segundo, Deus confirma o chamado de Jeremias afirmando a inevitabilidade dos eventos vindouros (vv. 12-14).
12 Pode alguém quebrar o ferro, o ferro do Norte, ou o bronze? 13Por todos os seus pecados, em todos os seus territórios, entregarei de graça os seus bens e os seus tesouros, para que sejam saqueados. 14Farei com que sejam escravos dos seus inimigos, numa terra que não conhecem, porque um fogo se acendeu em minha ira e queimará sobre vocês.
Judá seria levado cativo pela Babilônia. Os eventos eram tão certos que eram tão fortes quanto "o ferro do norte".
Mas a desilusão nem sempre é um fim em si. Quando não tratada, ela amadurece em algo ainda mais corrosivo: a amargura. Jeremias tem mais do que apenas desilusão com seu chamado. A sua desilusão progrediu e o levou a um estado de amargura e de ressentimento.
Reclamar pode levar à amargura e ao ressentimento15:15–17
15 Ó Senhor, tu o sabes. Lembra-te de mim, ampara-me e vinga-me dos meus perseguidores. Não permitas que, por causa da tua longanimidade, eu seja arrebatado. Fica sabendo que por causa de ti tenho sofrido afrontas.
Jeremias tem uma opinião sobre o responsável por seus problemas: Deus (v. 15). Jeremias está sofrendo muitas afrontas, e isso está acontecendo por Deus o havia chamado.
Percebam como a amargura é uma prisão. Ele acredita que não merecia tantos problemas. Isso o deixa confuso e chateado. As suas falsas expectativas não foram atendidas. Como isso pode acontecer com uma pessoa justa e fiel a Deus. Esse tipo de coisa não é razoável. Veja como Jeremias apresenta suas credenciais, nos v. 16-17:
16 Achadas as tuas palavras, logo as comi. As tuas palavras encheram o meu coração de júbilo e de alegria, pois sou chamado pelo teu nome, ó Senhor, Deus dos Exércitos. 17Nunca me assentei na roda dos que se divertem, nem me alegrei. Oprimido por tua mão, eu me assentei solitário, pois me encheste de indignação.
Primeiro, Jeremias amava a palavra de Deus (v. 16a). Segundo, Jeremias foi chamado por Deus (v. 16b). Terceiro, Jeremias não se associava com aqueles que odiavam a Deus (v. 17). Simplesmente não parecia razoável que coisas ruins acontecessem com uma pessoa tão obediente. Então, com tudo isso, por que Deus o trataria dessa maneira?
Talvez você esteja cansado de fazer o certo e não ver resultado. Você lidera sua família com fidelidade, teme o Senhor, mantém seus princípios — mas, ainda assim, se sente sozinho, injustiçado, até ignorado por Deus. Jeremias sentiu o mesmo.
Nessa passagem, Jeremias diz que é como o homem do Salmo 1:1-3.
1 Bem-aventurado é aquele que não anda no conselho dos ímpios, não se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores. 2Pelo contrário, o seu prazer está na lei do Senhor, e na sua lei medita de dia e de noite. 3Ele é como árvore plantada junto a uma corrente de águas, que, no devido tempo, dá o seu fruto, e cuja folhagem não murcha; e tudo o que ele faz será bem-sucedido.
Jeremias também ama a palavra de Deus e não se associa com pecadores. O homem do Salmo 1 é o homem abençoado, mas Jeremias se sente como o homem amaldiçoado. Por que isso está acontecendo?
Normalmente, bênçãos estão ligadas à obediência. Isso é muito claro nas Escrituras. No entanto, uma bênção não é um direito ou um dever de Deus para conosco. Uma bênção é apenas isso: uma bênção. Ela é dada por ordem e vontade do Abençoador. Como aqueles que ele abençoa não sabem tudo como Ele sabe, é lógico que nem sempre irão entender por que ele dá e tira. Isso é uma misericórdia, claro, mas também é um mistério.
O mistério da falta de bênção levou Jeremias pelo caminho da amargura. E quando a amargura fermenta no coração, o resultado é quase sempre previsível: caímos na armadilha da autopiedade. Tragicamente, a amargura de Jeremias o levou à autopiedade.
Reclamar Pode Levar à AutopiedadeJEREMIAS 15:18
18 Por que a minha dor não passa, e a minha ferida me dói e não admite cura? Serias tu para mim como ribeiro ilusório, como águas que enganam?
Jeremias pergunta: Por que estou nesta situação que não tem fim? Ela é como uma ferida que não cicatriza. Ele não concebe qualquer alívio.
Então, ele usa uma metáfora reveladora para Deus: Deus é como uma miragem, um ribeiro ilusório. Uma miragem é um problema porque parece real, mas não sacia a sede, não revigora, não cura. A miragem é um engano para a mente, uma ilusão. É assim que nos sentimos no auge da autopiedade: não temos alívio ou cura e a culpa é de Deus.
Lembre-se: a autopiedade é autoinduzida e, portanto, autoorientada. Não é algo obrigatório ou necessário. É algo que causamos a nós mesmos. Mas Deus não abandona seus servos em meio à confusão emocional. Ele responde. Então, como Deus responde às reclamações que levam à desilusão, à amargura e à autopiedade? Jeremias é instruído a se arrepender.
**Como Deus Responde à Autopiedade?**JEREMIAS 15:19–21
19 Portanto, assim diz o Senhor: “Se você se arrepender, eu o farei voltar e você estará diante de mim. Se separar o que é precioso daquilo que não presta, você será a minha boca. Eles se voltarão para você, mas você não passará para o lado deles.
Jeremias tinha ido longe demais. Ao se ressentir de seu chamado, ao desenvolver amargura contra os outros e ao manifestar autopiedade, ele pecou. O chamado foi um privilégio, mas um privilégio difícil. Deus nunca prometeu que seria fácil ou repleto de afirmação.
“Ao acusar Deus de enganá-lo e de falhar quando precisava, Jeremias ultrapassou os limites do que um servo de Deus pode dizer” (Huey, 163).
Deus então o repreende(v. 19a). É um chamado simples e claro para mudar seu coração e buscar a Deus e Seu chamado em sua vida. No entanto, embora o chamado seja claro, ele também é condicional. Deus espera mudanças. As expectativas que Deus servem de modelo para nosso viver.
**Uma Condição (15:19).**Deus iria restaurá-lo. Isso era bastante claro. No entanto, a restauração estava condicionada a um novo compromisso com a Palavra de Deus. Esta pode ser a declaração mais concisa sobre o chamado nas Escrituras: a escolha de falar palavras preciosas e não palavras inúteis, palavras tolas ou que não prestam.
Jeremias deveria agir de forma oposta aos falsos profetas. Eles foram sem serem enviados e falavam sem ter ouvido a voz de Deus.
Uma Promessa (15:20-21)
Uma vez que Jeremias decidir ser fiel e falar o que Deus mandar e não suas próprias palavras, Deus faz algumas promessas específicas.
20 Farei de você um forte muro de bronze diante deste povo. Eles lutarão contra você, mas não conseguirão derrotá-lo, porque eu estou com você para salvá-lo e livrá-lo deles”, diz o Senhor.
Primeiro, Deus o protegerá (v. 20). Isso claramente não significa uma vida livre de ataques. Pelo contrário, embora Jeremias fosse literalmente espancado no futuro, seu espírito não seria quebrado. Paulo viveu isso em 2 Co. 4:8-9:
8 Em tudo somos atribulados, porém não angustiados; ficamos perplexos, porém não desanimados; 9somos perseguidos, porém não abandonados; somos derrubados, porém não destruídos.
Em segundo lugar, há uma promessa de libertação (v. 21).
21 “Eu o libertarei das mãos dos iníquos e o livrarei das garras dos violentos.”
Mesmo que o profeta seja perseguido por pessoas más, ele não será subjugado. Mesmo que enfrente gente violenta, ele não estará sob o controle dessas pessoas.
O que mais você precisa na jornada cristã? É claro que poderíamos pedir para nunca enfrentar situações ou pessoas difíceis, mas isso não é possível num mundo cheio de pecado. Além disso, pessoas difíceis precisam ser ajudadas. Ao lidar com situações difíceis e com gente endurecida precisamos agir com graça e exercer nosso papel.
Às vezes precisamos testemunhar para pessoas endurecidas pelo engano, para gente que culpa Deus pelo sofrimento. Precisamos aprender a buscar a voz de Deus e confiar no cuidado dEle para dizer as palavras dEle e não as nossas. O crente precisa ter casca grossa e o coração mole.
Se você não consegue lidar com ofensas dentro e fora da igreja, você precisa amadurecer na fé para poder ajudar as pessoas e suportar oposição. Se isso não acontece, você é provavelmente a pessoa que está dando problemas e que precisa de cuidado. Deus não quer você neste estado.
Pensem nos líderes da igreja. Eles devem ser padrão nesta tarefa. Conforme Tito 1:9, eles devem ser “apegados à palavra fiel, que está de acordo com a doutrina, para que possa exortar pelo reto ensino e convencer os que contradizem este ensino”.
Um crente maduro deve amar e lutar. Ele luta porque ama. O crente maduro ama a Palavra de Deus e a guarda. Ele ama o povo de Deus e cuida do povo de Deus. Isso não é um chamado apenas para presbíteros ou pastores. É um chamado para amadurecer na fé. Isso se reflete no cuidado com o povo de Deus.
Conclusão:A existência de crentes fieis passando por desilusões espirituais é mais comum do que imaginamos. Jeremias enfrentou isso por ser obediente. Não perca esse ponto da mensagem.
A tristeza e inquietação de Jeremias não uma ressaca pela culpa do pecado de uma noitada de farra. Ele não descobriu de repente que estava brincando com a Palavra de Deus para sua própria ruína. Jeremias estava provando um resíduo amargo da obediência. Ele estava com um calo doendo por 10 anos, provavelmente, de serviço profético fiel.
Jeremias está sofrendo. Sua mensagem colidia com a cultura. Ele expunha a doença espiritual daquele povo. Por isso ele estava sendo difamado, maltratado e, eventualmente, ameaçado de morte.
Talvez o cristianismo brasileiro não esteja provocando nos crentes este tipo de dor porque está sinalizando apenas com cura, esperança, paz e prosperidade. Esse pretenso cristianismo fala a linguagem do coach, da cura para um mundo que não tolera o sofrimento, para um mundo que idolatra o conforto e o pecado sem culpa.
Talvez não enfrentemos reações do mundo porque fingimos que o evangelho é fofinho e domesticado. Não estou pregando que você deva desejar ficar desapontado com Deus, mas estou dizendo que precisamos desejar ter a mesma obediência de Jeremias. Devemos imitar Jesus que foi obediente até a morte e morte de Cruz.
Talvez estejamos desiludidos por motivos errados. Deus não prometeu uma vida confortável. Não garantiu carreira de sucesso, paz doméstica, filhos crentes e obedientes ou romance de cinema.
Nossa promessa de vida não é melhor do que a vida do nosso Senhor. Jesus nos prometeu uma vida semelhante a dEle: se odiaram Jesus, nos odiarão. Somos embaixadores de um Deus que exige santidade em um mundo que exige o direito de profanar a vontade de Deus e Sua palavra. A colizão dessas realidades é esperada.
Portanto, de uma forma estranha, há uma desilusão a caminho quando em nossa obediência somos perseguidos. O desafio é o de não cair na amargura e na autopiedade como Jeremias pecou aqui. A tensão entre ser bem-aventurado e sofrer por Cristo é inevitável, mas pecar por autopiedade é uma escolha, uma escolha da qual devemos nos arrepender.
É possível que você esteja vivendo uma fase silenciosa de frustração. Você ora, serve, lê a Palavra, mas a resposta de Deus parece demorada ou distante. Como Jeremias, você age com zelo, mas Deus parece demorar. Uma desilusão pode estar virando amargura e autopiedade. Você pode estar sofrendo para continuar. A Palavra do Senhor para você é a mesma: volte, se arrependa. Descanse na Palavra preciosa e não nos sentimentos. Retome sua posição diante de Deus. A fidelidade pode ser dolorosa, mas ela nunca é em vão.