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Jeremias 26-28 - A Paternidade e a Seriedade de Deus

19 de setembro de 20258 min de leitura

Jeremias 26-28 - A Paternidade e a Seriedade de Deus

Introdução: Uma família conhecida passou por isso. Imaginem a cena. Eles estavam viajando de ônibus no exterior. Tudo estava indo relativamente bem na viagem. Alguns aproveitaram para observar as lindas paisagens, enquanto outros tiravam um cochilo. Numa das paradas, subiu um senhor idoso, com roupas surradas, chapéu e com um cheiro terrível. Ele não se sentou por perto, mas todos no ônibus, cujas janelas estavam fechadas, sentiram o odor espalhado pelo ar.

E aí vem aquela sinceridade crua das crianças. A criança mais nova do grupo sentiu o cheiro, arregalou os olhos e começa a reclamar e a perguntar: “Esse homem está fedido!” “mãe, ele não toma banho? Eca, quero descer...” Os pais tentavam fazer o menino calar, os outros parentes riam constrangidos tentando disfarçar. Passava um tempo, e o menino inconformado com o cheiro reclamava novamente. “Eca, mãe...”

O grupo compartilhava uma esperança: que ninguém mais no ônibus entendesse português. Eles tentavam disfarçar, mas o constrangimento estava lá no cheiro e no inconformismo do menino. A sensação de julgamento estava presente. No fundo, eles pensavam: “Será que eles vão achar que somos maus-educados? Que brasileiro não sabe educar os filhos? Que os pais não conseguem calar um menino tagarela? Coisas assim revelam algo que sentimos: o peso da opinião dos outros sobre nós. A percepção que as pessoas têm sobre nós pesa. Mesmo quando não há culpa, podemos ficar envergonhados.

Eu imagino que os sacerdotes e profetas de Israel se sentiam assim em relação a Jeremias. Ele era um incômodo público. Um profeta que falava coisas desagradáveis, mas o que eram necessárias. Um agitador na porta do templo, falando alto, apontando pecados, dizendo o que as pessoas não queriam ouvir. Jeremias não era um profeta comportado. Para os líderes, ele era uma presença constrangedora. Contudo, para Deus, ele era apenas um filho obediente.

Deus é esse pai que não se envergonha de seus filhos que lhe obedecem, mesmo quando o mundo inteiro se envergonha deles.

Como eu mencionei, estávamos uma macroexposição de Jeremias. O cap. 26 acontece no reinado de Jeoaquim. Os outros dois, no de Zedequias. O povo e os governantes permaneceram rebeldes contra Deus e contra o profeta que lhes dizia o que precisavam, mas não queriam ouvir. As lutas do profeta e o constrangimento que ele causava revelam algo sobre Deus. Deus se revela, pelo seu profeta, como um Deus de esperança, um Deus soberano e um Deus severo.

I. Deus dá esperança (Jeremias 26)

No capítulo 26, Jeremias é enviado para pregar no pátio do templo. Imaginem a cena: aquele lugar era símbolo da presença de Deus, um espaço de religiosidade e tradição. As pessoas estavam ali para se sentir seguras, para sentir paz. E Jeremias levanta a voz e anuncia: — “Se vocês não se arrependerem, Jerusalém será destruída como Siló.”

A mensagem foi dura, e a reação foi imediata. O povo e os sacerdotes ficaram furiosos e desejaram matar o profeta. Jeremias foi acusado de trair a nação.

A sua defesa foi dizer que estava simplesmente falando o que Deus o havia mandado falar. O povo reagiu a isso, mesmo não gostando da mensagem, havia um senso de respeito à pessoa do profeta. Eles decidiram poupar a vida de Jeremias porque alguns reconheceram: “Este homem não merece a morte, pois falou em nome do Senhor.”

O que aprendemos aqui? Aprendemos que a fidelidade à palavra de Deus muitas vezes gera rejeição. Jeremias foi visto como um problema, um embaraço, mas Deus não se envergonhou dele.

Aplicação: irmãos, quantos de vocês já sentiram o peso da opinião dos outros? Talvez no trabalho, quando sua fé é motivo de piada. Talvez vizinhos que questionam a decisão de educar seus filhos na igreja, ao invés de aproveitar o funk nos clubes aos domingos; talvez gente da sua própria família afirmado que somos radicais demais.

O que Jeremias nos lembra é que, quando obedecemos a Deus, Ele não se envergonha de nós. Nossa esperança não está em sermos aceitos pelas pessoas, mas em saber que o nosso Pai nos aprova.

O capítulo 26 mostra que há esperança em meio ao juízo, o cap. 27 mostra que essa esperança exige submissão à soberania divina.

II. Deus é soberano (Jeremias 27)

No capítulo 27, Jeremias faz algo ainda mais constrangedor do que falar: ele coloca uma canga de madeira no pescoço e diz:

— “Ponham o pescoço sob o jugo da Babilônia.” Vocês conseguem imaginar como isso soou para o povo? O jugo era símbolo de escravidão, de derrota. Jeremias estava dizendo: “Submetam-se ao inimigo. Aceitem o cativeiro.”

Para Zedequias, isso foi doloroso. Ele governava na terra prometida, na herança de Abraão. Ele era descendente do Rei Davi. Como aceitar que Deus estava ordenando que ele se submetesse a um povo ímpio? E, para piorar, profetas diziam exatamente o oposto: “Não se preocupem, tudo vai ficar bem, Deus vai livrar vocês.” Mas Jeremias insiste: “Se vocês se submeterem, viverão. Se resistirem, serão destruídos.”

Mas por que Deus mandaria o povo se submeter ao jugo? Se humilhar era ser salvo. Deus continuava a agir com misericórdia e prometendo abençoar a obediência. Há uma última oportunidade, depois de séculos de desobediência por parte deles e de paciência de Deus. Deus permitiria que eles sobrevivessem na Babilônia e evitassem a destruição que eles mereciam.

Já não havia tempo para fugir da disciplina, mas eles ainda podiam se submeter a ela. Infelizmente, como sabemos pelo restante do livro, Zedequias rejeita a disciplina do Senhor e é destruído. Ele não aceitou o jugo, então recebeu a vara.

Jeremias carrega o jugo de ser um profeta fiel e será aliviado futuramente, mas Zedequias e o povo rejeitam o jugo e sofrem as consequências.

A submissão ao jugo de Deus, por mais dura que pareça, nos aponta para Cristo — que tomou sobre si o jugo final do pecado, para que fôssemos libertos. Obedecer ao Pai, mesmo em dor, é andar no caminho por onde o Filho passou primeiro.

O que aprendemos aqui? Deus-Pai é soberano até mesmo sobre a disciplina. Às vezes, o caminho de obediência não é o mais lógico, nem o mais agradável. Mas é o caminho seguro, porque está nas mãos de um Pai que sabe o que faz.

Aplicação: quais são nossos jugos? Dificuldades financeiras, saúde, filhos pequenos e excesso de demandas? Humanamente, queremos nos livrar dessas coisas, mas Deus nos chama a suportar coisas assim, até como parte da disciplina amorosa dEle de nos ensinar a depender, a crer, a ter esperança. Quando nós iramos contra Deus nesses processos, o acusamos de ser mau ou infiel conosco. Essa é uma posição bem temerária. Ser juiz de Deus não é sábio. Deus é soberano e bom. Ele cuida de nós, mesmo em processos longos e difíceis de suportar.

Mas o povo, como muitos de nós, preferia ouvir o que agradava. E isso nos leva ao capítulo 28, onde vemos que Deus é severo — e sua palavra não pode ser manipulada.

III. Deus é severo (Jeremias 28)

No capítulo 28, surge o falso profeta Hananias. Ele anuncia uma mensagem completamente diferente: “Deus já quebrou o jugo da Babilônia. Dentro de dois anos, tudo voltará ao normal.”

Era exatamente o que o povo queria ouvir. Uma palavra doce, confortável, agradável. Mas era mentira. Jeremias demonstra compaixão e cautela. Ele quer que essa profecia se cumpra. No entanto, ele é cauteloso e alerta o profeta Hananias de que somente quando uma profecia se cumpre um profeta é que ele é justificado.

Jeremias consultou o Senhor e afirmou que a palavra de Deus era outra. O falso profeta insistiu e quebrou a canga de madeira que Jeremias usava diante de todos. Mas Jeremias anuncia novamente a Palavra de Deus: “Você quebrou um jugo de madeira, mas agora ele será de ferro. Porque você pregou rebelião contra o Senhor, morrerá este ano.” Pouco tempo depois, Hananias realmente morreu.

O que aprendemos aqui? Aprendemos que Deus é severo, é sério. Ele não brinca com o pecado. Ele não ignora a mentira. Deus não tolera falsos profetas e falsos evangelhos.

Aplicação: irmãos, o nosso tempo está cheio de mensagens agradáveis. Pregações que prometem prosperidade sem arrependimento. Palavras que dizem “vai dar tudo certo” sem chamado ao arrependimento e a jornada da obediência. Esse é o evangelho de Hananias: agradável, mas falso. Promete alívio sem arrependimento, mas entrega à morte e não à vida. O verdadeiro Deus é sério, e o evangelho verdadeiro passa pelo arrependimento e pela cruz.

Conclusão: Pensem na cena do ônibus. Como pais, muitas vezes nós nos preocupamos com a opinião dos outros, mas nosso pai celestial não é assim. Começamos falando sobre o constrangimento que sentimos quando temos uma criança que não coopera. Nós conhecemos essa situação e, às vezes, ficamos com pena de pais que tem que lidar com filhos em aparente rebeldia, mesmo quando esses pais parecem tranquilos na situação. Nós sentimos uma espécie de vergonha alheia.

Jeremias foi ridicularizado, chamado de louco, acusado de traição. Mas Deus estava satisfeito com ele. E isso bastava. No caso de Jeremias, temos essa ironia. As pessoas sentem vergonha por causa dele, mas Deus não. Deus não sente vergonhou de Jeremias. Deus aprovou o comportamento dele e isso é tudo que importa.

Jeremias, mesmo com suas limitações, se parece com Jesus. Ele não está preocupado consigo mesmo, mas busca o interesse dos outros; Jeremias fala a verdade em amor e cumpre seu doloroso chamado.

Nós sabemos das falhas de Jeremias, de como sua fé vacilou muitas vezes, de como Deus precisou intervir para salvá-lo da autopiedade e do medo. Jeremias precisava de um Redentor – e o mesmo Redentor que o sustentou, é o que hoje nos sustenta. A cruz é o lugar onde Deus entregou o seu Filho para nos chamar de filhos. Jesus não fez caso da sua vergonha para nos dar o que não possuíamos.

Chamado final: Quando ter fé e obedecer parecer uma opção ridícula, lembre-se: Deus não se envergonha de você. Sua esperança precisar estar nEle, não na opinião dos outros.

Quando as dificuldades vierem, confie. Deus em sua soberania nos disciplina como um pai amoroso que desejava nos ver crescer.

Quando ouvir mensagens fáceis, desconfie. O Pai perfeito é severo e não promete atalhos — Ele oferece um caminho estreito, mas seguro, que conduz à vida verdadeira.

Hebreus 11:16 diz: “Deus não se envergonha deles, de ser chamado o seu Deus.” Se Deus não se envergonha de nós em Cristo, então podemos viver com coragem, sabendo que já temos a única aprovação que importa: a aprovação dEle.