Jeremias 8:4-9:26 - Quem Você Conhece? A Verdadeira Glória
02 de maio de 2025 • 11 min de leitura

I. Nossa Glória Não É o Que Temos (9:23).
II. Nossa Glória É Conhecer a Deus (9:24).
Imagine que você está diante de uma mesa com três cartões. Cada um deles representa aquilo que move grande parte da humanidade.
O primeiro diz: "Sabedoria" — a capacidade de entender os mistérios da vida, tomar boas decisões, ser admirado.
O segundo diz: "Poder" — influência, controle, domínio.
O terceiro diz: "Riquezas" — estabilidade, conforto, prazer, segurança.
Se fôssemos obrigados a escolher apenas por um? Você ficaria frustrado? A verdade é que a maioria de nós tenta, consciente ou inconscientemente, segurar os três ao mesmo tempo.
Nessa busca, as pessoas apostam em si mesmas ou procuram por Deus como forma de obter um tipo de prosperidade que englobaria essas três esferas. Pessoas buscam Deus de forma utilitária para obter poder, sabedoria ou algum tipo de riqueza relacional, física ou mesmo financeira. A questão é que poucos buscam Deus para conhecê-lo. Muitos querem as bençãos de Deus, mas não O desejam.
Será que nossa vida cristã tem girado em torno de conhecer a Deus e fazê-lo conhecido ou tem sido uma busca pelo que Deus pode nos dar?
Mas em Jeremias 9, Deus desmonta essa busca. Ele redefine completamente onde nossa verdadeira glória deve estar.
“Não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem o forte no seu poder, nem o rico nas suas riquezas, mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em me conhecer e saber que eu sou o Senhor.”
Conhecer a Deus — não apenas saber sobre Ele, mas conhecer de verdade, relacionalmente, pessoalmente — é mais valioso do que qualquer conquista terrena.
Jesus afirma (João 17:3) que a vida eterna é uma possibilidade condicionada a se ter intimidade com Deus:
3 E a vida eterna é esta: que conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste.
Aqui em Jeremias 9 nos encontramos uma das declarações mais concisas de toda a Bíblia sobre o que é conhecer a Deus. Esses versículos são desmembrados por Jesus no sermão do monte. Estamos diante de algo de valor inigualável.
**Contexto.**No domingo passado vimos o sermão de Jeremias na entrada de templo em que Deus chamava as pessoas ao arrependimento. Na sequência vem uma profecia terrível sobre o julgamento de Deus sobre o povo, que vai do 8:4 a 9:26. Dentro desse trecho esse trecho que contém umas das declarações mais poéticas sobre conhecer a Deus. Ela vai nos ensinar onde devemos nos gloriar.
Nossa Glória Não É o Que Temos JEREMIAS 9:23
23— Assim diz o Senhor: Não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem o forte, na sua força, nem o rico, nas suas riquezas.
Isso é extremamente prático. Você já viu uma roda de pessoas que estão se gabando? Gente com má formação intelectual usando de palavras e expressões difíceis tentando parecer mais inteligente do que realmente são? Aquela pessoa que quer todos na mesa saibam que ela tem um carrão e para isso ela fica com a chave pendurada? Gente que fica mencionando conhecer A ou B, que alcançou isso ou aquilo? Gente que gasta fortuna em determinadas roupas fabricadas na China e etiquetadas na Europa? Essas são maneiras óbvias de tentar demonstrar sabedoria, poder e riqueza.
Uma observação aqui. Jesus deixou claro que a possuir coisas não é pecado em si mesmo. Algumas pessoas piedosas que conheci são ricas, sábias e tem poder. Jesus deixa claro no sermão do Monte que o Cristianismo verdadeiro não está nas aparências.
No círculo religioso, podemos inventar maneiras mais sutis de nos gabar. A pessoa não quer se orgulhar de ser inteligente, mas sente uma satisfação presunçosa em se achar mais inteligente, ou espiritual que os outros. De uma forma estranha, nos enganamos com nossa espiritualidade e tentamos ser discretos para não parecermos arrogantes.
Esse tipo de pensamento cria um ídolo a partir de nossas inseguranças. Jesus vê o coração. Ele, no sermão do Monte, ao nos ensinar a orar no quarto, ofertar sem ser visto, jejuar sem publicidade, mostra que a busca é por integridade, por ser real, por ser sincero diante de Deus. Este é o verdadeiro ponto. Nosso coração precisa desejar a presença de Deus. E isso nos leva ao segundo ponto:
Nossa Glória É Conhecer a Deus JEREMIAS 9:24
Mas aquele que se gloria, glorie-se nisto: em me conhecer e saber que eu sou o Senhor e faço misericórdia, juízo e justiça na terra; porque destas coisas me agrado, diz o Senhor.
Nossa verdadeira glória não está em aparência, títulos ou conquistas — ela está em conhecer a Deus. Se, como Jesus afirmou, conhecer a Deus Pai e a Jesus é o caminho da vida eterna, então ter intimidade com Deus é o antídoto para uma fé falsa.
Conhecer a Deus é conhecer Suas ações redentoras. Jeremias destaca três aspectos inseparáveis do caráter divino: misericórdia, juízo e justiça.
Misericórdia (ou fidelidade) aponta para o amor leal e pactuado de Deus com o Seu povo.
Juízo lembra que Deus julga com retidão e não ignora o pecado.
Pelo contexto de Jeremias, essa dimensão escapou à Nação. Eles esqueceram que Deus era um Deus de juízo e, portanto, viviam em pecado presunçoso. Eles apostavam que Deus jamais perceberia que seus corações estavam longe dEle. Eles imaginavam que bastava manter práticas religiosas. Eles iam ao templo religiosamente, mas o coração deles não era um templo.
Justiça é a expressão prática de Seu caráter: Ele age corretamente e exige o mesmo dos que O conhecem. Essa tríade de caráter está inter-relacionada. O amor fiel de Deus motiva Seu juízo e se expressa em justiça.
Gloriar-se em Deus não tem nada a ver com autopromoção ou superioridade espiritual. A vanglória é, na verdade, um disfarce da insegurança: é o desejo de projetar aquilo que não somos. Ela busca aplauso. É superficial, oca, baseada em aparência.
A vanglória, às vezes, pega algo bom em nós e transforma num absoluto: Eu sou trabalhador, portanto, posso ser rude. De qualquer forma, quem conhece a Deus não precisa provar nada. Ele sabe que toda sabedoria, força e justiça vêm Dele. Por isso, seu coração não se exibe, nem procura sentido nas coisas daqui. O coração repousa em Deus. Não há competição, porque a glória pertence a um só: ao Senhor.
Gloriar-se no Senhor é reconhecer e celebrar uma realidade que não vem de nós, mas de Deus. Essa verdade percorre toda a Escritura. Paulo ecoa Jeremias quando afirma em 1 Coríntios 1:28-31:
28 E Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são, 29a fim de que ninguém se glorie na presença de Deus. 30Mas vocês são dele, em Cristo Jesus, o qual se tornou para nós, da parte de Deus, sabedoria, justiça, santificação e redenção, 31para que, como está escrito, “aquele que se gloria, glorie-se no Senhor”.
Paulo ensina que não espaço para a vanglória humana diante de Deus. Nós nos gloriamos no Senhor porque é a resposta devida. Tudo o que temos vem Dele: sabedoria, justiça, santificação e redenção. Por isso, o único motivo legítimo de gloriar-se é o próprio Deus. Deus faz algo significativo a partir de vidas perdidas que estavam perdidas. Tudo vem de Deus. Novamente em Gálatas 6:14, Paulo escreve:
14 Mas longe de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu estou crucificado para o mundo.
Aqui Paulo rejeita qualquer orgulho baseado em identidade étnica ou tradição religiosa. A cruz de Cristo é o único fundamento da verdadeira glória. Tiago também ecoa essa verdade em Tiago 1:9-11:
9 O irmão de condição humilde glorie-se na sua exaltação, 10e o rico, na sua humilhação, porque ele passará como a flor do campo. 11Porque o sol se levanta com seu calor ardente, a planta seca, a sua flor cai e a formosura do seu aspecto desaparece. Assim também o rico murchará em seus caminhos.
A glória vã é sempre uma tentativa de projetar uma imagem idealizada de nós mesmos — aquilo que gostaríamos que os outros vissem, mas que sabemos que não somos. Essa é a essência da vanglória: aparência sem substância, luz sem fonte.
Mas quem de fato conhece a Deus adquire outra perspectiva. Ele não busca glória para si, porque sabe o quão pequeno é diante da majestade divina. Na presença de Deus, todo orgulho humano evapora.
A verdadeira glória não nasce do esforço, mas do reconhecimento: não temos nada em nós mesmos do que possamos nos orgulhar. Por isso, o coração do justo não se exibe, mas se inclina. A glória e a grandeza de Deus desmontam nosso senso de autoimportância. Elas nos colocam no devido lugar: como receptores da luz, não como fontes.
Quando contemplamos a santidade de Deus, percebemos o quanto somos frágeis. Somos como janelas cobertas de fuligem e gordura — janelas que, por si mesmas, não têm brilho. Mas quando lavadas pela graça, deixam passar a luz da glória de Deus. E essa luz revela, transforma e ilumina. Nossa humildade torna-se então uma moldura para que a glória de Deus se manifeste.
Aquele que compreende isso não é mais sábio nem melhor do que os outros — é apenas alguém que foi alcançado por uma luz que não se origina nele, mas em Deus.
Quem conhece o Deus verdadeiro e a Jesus Cristo tem a vida eterna (Jo 17:3). E Jesus, que conhecia o Pai perfeitamente, fez disso a razão da Sua missão. Mas vejamos a sequência: Jo. 17:4-5
4 Eu te glorifiquei na terra, realizando a obra que me deste para fazer. 5E agora, ó Pai, glorifica-me contigo mesmo com a glória que eu tive junto de ti, antes que houvesse mundo.
Jesus, embora fosse Deus, velou Sua glória ao assumir nossa forma. Ele se esvaziou, não de Sua divindade, mas de Seu status visível, escolhendo glorificar o Pai em cada passo de Sua missão. Seu objetivo era que a glória do Pai fosse vista através dEle.
Por que Jesus, o Filho de Deus, deu toda a glória ao Pai? Porque ele conhecia o Pai mais profundamente do que qualquer outro, e conhecer a Deus é exaltá-lo. Quem conhece Deus não se torna um idealista sonhador, mas um realista realizado. Ele sabe que a vida está se dissipando e sendo incorporada no Reino de Deus. Eles sabem disso. Portanto, eles se gloriam no eterno, não no passageiro, como a riqueza, o poder ou a sabedoria humana.
Jeremias sabia que o coração humano não se contenta com o invisível. Por isso, ele prossegue denunciando a idolatria do povo — a tentativa constante de trocar o eterno por imagens manipuláveis.
Frequentar uma igreja, por si só, não destrona os ídolos do coração. Podemos estar no templo, como os ouvintes de Jeremias, e ainda manter o trono ocupado por nossos desejos. O culto só é verdadeiro quando busca Deus por quem Ele é, não apenas pelo que Ele pode dar.
É interessante que essa ideia de conhecer melhor a Deus esteja num profeta do Antigo testamento. Deus não está satisfeito conosco até que estejamos satisfeitos com a Sua presença. O maior desejo de Deus para nós é que Ele seja o nosso maior desejo. Deus busca adoradores que tenham intimidade com Ele.
Isso encontra eco nos corações. Queremos que algo seja nosso objeto de afeição, seja família, esportes, uma amizade, um objetivo profissional ou acadêmico, um status social ou algo material. Todas essas coisas, ideais e ambições podem ocupar um lugar em nossos corações.
Nós somos atraídos por isso porque são objetos confortáveis. Ninguém precisa ser honesto com um carro ou com um emprego novo. Você pode idolatrar essas coisas e depois trocá-las. Pode dar apenas parte do coração a elas. Mas com Deus é diferente. Fazer dEle o objeto da nossa adoração significa estar totalmente envolvido — sem meio termos. Não existe ser “meio íntimo” de Deus. Ou somos íntimos, ou não somos.
Para Jeremias, o antídoto da idolatria é a intimidade. A cura para a adoração de falsos deuses é conhecer o único Deus verdadeiro.
Conclusão. A cura para nossa sede de poder, de riqueza ou de sabedoria humana é o encontro com uma pessoa, com Cristo. Precisamos quebrar as janelas sujas do nosso orgulho para que sua luz entre.
A cultura ao nosso redor nos chama para idolatrar a fama, a si mesmo, a família, as realizações, a religião, os dons e talentos. Essas coisas são apenas sombras do que perseguimos. Como crianças iluminadas por alguma luz, ficamos perseguindo uma sombra que não pode conter. Fama, glória, sucesso, conquistas e amor são sombras da grande luz. Deus não quer que você rejeite estas coisas, mas que você encontre a luz que traz significado para essas coisas. Vire-se para a fonte de luz, procure a presença de Deus. Que sua glória seja conhece-lO.
Refletir e Discutir
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Qual é a conexão entre esta passagem e o sermão de Jeremias no templo? Como devemos entender os dois textos à luz um do outro?
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Como Jeremias vê a vanglória? Toda vanglória é antibíblica? Existe um tipo de vanglória em que os cristãos devem se envolver?
3. O que esta passagem nos ensina sobre "vangloriar-se" como cristãos?
- O texto nos ensina que a verdadeira vanglória é que conhecemos a Deus. Quais são as três verdades apresentadas nesta passagem que nos asseguram esse tipo íntimo de vanglória?
5. A vanglória bíblica é a mesma coisa que a jactância? Se não, como podemos distinguir a diferença entre as duas?
- A ideia de vanglória tem uma trajetória ao longo das Escrituras. Discuta o que as Escrituras dizem sobre vanglória em 1 Coríntios 1:28-31; Gálatas 6:14; e Tiago 1:9.
7. Como Jesus demonstrou humildade na encarnação?
8. O que Jeremias diz sobre a adoração de falsos ídolos?
9. Qual era o oposto de idolatria para Jeremias?
10. Qual foi a cura de Jeremias para a adoração de falsos deuses?
Smith, S. (2019). Exaltando Jesus em Jeremias, Lamentações (p. 55-61). Editora Holman.