Lucas 9:23-27 - Tome a Sua Cruz e Siga-me: O Custo do Discipulado
09 de março de 2024 • 13 min de leitura

Tome a sua cruz e me siga.
Os evangelhos mostram claramente que há um ponto de virada. Aqui em Lucas isso aconteceu no cap. 9:20-22. Jesus perguntou para os discípulos: “quem vocês dizem que eu Sou?” Pedro respondeu: “O Cristo de Deus”. Sim, reconhecer a identidade de Jesus é essencial. Você já reconheceu quem Jesus é? Ele é Cristo de Deus? Ele é aquele que foi ungido por Deus para reinar? Pedro afirmou que Sim.
Desse ponto em diante, Lucas concentrou sua atenção na “necessidade do sofrimento de Jesus, na sua rejeição, sua morte e na sua ressurreição”. Sim, Jesus previu o que aconteceria com Ele, para depois abordar qual o custo exigido daqueles que iriam seguí-lo, qual o custo de ser um discípulo, qual o custo do discipulado? Como Jesus descreve os compromissos que precisamos ter para ser um discípulo dEle? Vamos ler o texto desta manhã, que está em Lucas 9:23-27:
23 Jesus dizia a todos: — Se alguém quer vir após mim, negue a si mesmo, dia a dia tome a sua cruz e siga-me. 24Pois quem quiser salvar a sua vida a perderá; e quem perder a vida por minha causa, esse a salvará. 25De que adianta uma pessoa ganhar o mundo inteiro, se vier a perder-se ou causar dano a si mesma? 26Pois quem se envergonhar de mim e das minhas palavras, dele se envergonhará o Filho do Homem, quando vier na sua glória e na glória do Pai e dos santos anjos. 27Em verdade lhes digo que alguns dos que aqui se encontram não passarão pela morte até que vejam o Reino de Deus.
Introdução Jesus nasceu em Belém. Ele cresceu a pouco mais de 100km ao norte de Belém, na Galileia, numa vila chamada Nazaré. Há 6 quilômetros ao norte de Nazaré havia uma cidade chamada Tiberiádes que era a capital romana na Galiléia durante a época de Jesus.
É muito provável que Jesus conhecesse aquela cidade muito bem e talvez até tenha trabalhado lá como carpinteiro durante a época de sua reedificação. Tiberiádes era uma cidade importante. Ela tinha belos edifícios, templos, um anfiteatro e outros sinais de sofisticação. William Barclay narra um evento histórico que aconteceu em Tiberíades durante a infância de Jesus:
Quando Jesus tinha por volta de onze anos, um tal de Judas, o Galileu, liderou uma rebelião contra Roma. Ele invadiu o arsenal real em Tiberiades. A vingança romana foi rápida. Tiberiádes foi completamente queimada; seus habitantes foram vendidos como escravos; e 2.000 rebeldes foram crucificados em linhas ao longo da estrada para mostrar o que aconteceria com que se rebelasse contra Roma.
Os judeus viviam sobre a opressão romana e sabiam o significado da crucificação. Não era incomum ver pessoas carregando suas próprias cruzes. Eles sabiam que o destino delas era morrer. Portanto, é extremamente relevante que Jesus tenha escolhido a crucificação para explicar o que está envolvido no discipulado, qual o seu custo.
Este trecho mostra o que Jesus entende com a ideia de ser seu discípulo. Para tanto, vamos ver: Vamos usar o seguinte esboço: 1. O compromisso do Discipulado (23) 2. A Troca do Discipulado (:23:24) 3. A Tragédia do Discipulado (9:25-27)
I. O compromisso do Discipulado (9:23)
Primeiro, vamos examinar o compromisso do discipulado. É importante compreender o contexto do ensino de Jesus sobre o discipulado. Pedro tinha acabado de fazer aquela declaração maravilhosa de que Jesus é o Cristo, o que ungido de Deus para reinar e para salvar os perdidos. (9:18-20). Mateus 16:17, afirma que foi Deus quem deu entendimento a Pedro para isso.
Conhecer quem Jesus é apenas o primeiro passo. Os discípulos de Jesus também precisavam entender a obra de Jesus. Então Jesus explicou que ele iria sofrer, ser rejeitado, morto e que ressuscitaria (9:21-22). Jesus, por ser o Cristo, foi enviado pelo Pai exatamente para isso, salvar pecadores perdidos.
Mas aquela notícia que Jesus iria sofrer e morrer foi muito difícil de processar. Eles preferiam ver Jesus como a pessoa que iria libertar Israel da escravidão política. Mas, Jesus veio para libertá-los da escravidão espiritual, do pecado e de Satanás.
Mas saber quem Jesus é e o que Ele fez não é o suficiente para ser salvo. Jesus prosseguiu com a notícia mais difícil: assim como ele sofreria e morreria, todos os seus discípulos também precisariam sofrer e morrer. Nestes poucos versículos, Jesus proclamou a mensagem do evangelho e a aplicou à vida diária. Philip Ryken explica assim:
“Tome a sua cruz e siga-me”. Em essência, Jesus disse: “O que está prestes a acontecer comigo, acontecerá com você também, se você me seguir ... você terá que me seguir até a cruz, porque é para lá que estou indo.” Esse é o termo do que significa confessar Jesus. É muito mais do que simplesmente saber quem Ele é ou o que Ele veio fazer aqui. Significa que a vida de Jesus, com todo o seu sofrimento, se torna nossa própria forma de viver. O único Cristo que vale a pena confessar é o Cristo crucificado. A única maneira de confessá-lo é segui-lo até a cruz.
Esse é o contexto da declaração de Jesus no v. 23: 23Jesus dizia a todos: — Se alguém quer vir após mim, negue a si mesmo, dia a dia tome a sua cruz e siga-me. Esta é a definição do próprio Jesus sobre o que significa ser seu discípulo. Estes são os seus termos a respeito do compromisso do discipulado.
Observem três ideias aqui: Primeiro, a declaração de Jesus não foi apenas para os doze apóstolos. Jesus dizia a todos. Jesus queria que qualquer interessado em ser discípulo soubesse previamente o que está envolvido em seguir Jesus. Isso se aplica a todos os discípulos.
Segundo, Jesus usa três verbos para descrever o que cada discípulo deve fazer: negar, aceitar e seguir. São três maneiras de dizer a mesma coisa, com pequenas diferenças de ênfase.
Terceiro, estes são os termos do discipulado e não requisitos da salvação. Somos justificados e salvos apenas pela fé na obra de Cristo. No entanto, a fé salvadora sempre se revela na autonegação, na aceitação (tomada da cruz) e na imitação diária de Cristo.
A. Um Discípulo deve se negar (9.23b) Lucas 9:23b: “Se alguém quer vir após mim, negue a si mesmo,” Philip Ryken explica:
A palavra grega usada para “negar” é uma forte negação, que aqui significa esquecer-se completamente de si, a rejeição de qualquer pensamento de agradar a si mesmo e não a Deus. Em vez de nos satisfazermos de todas as maneiras de acordo com o que a nossa natureza pecaminosa deseja, somos chamados a negar-nos a nós mesmos, rejeitar tudo e qualquer coisa que atrapalhe nossa entrega ao culto de Deus. Isto é praticamente o oposto da forma egoísta como a nossa cultura nos chama a viver. Somos constantemente convidados a conquistar o que queremos da vida, a satisfazer todos os nossos caprichos e a satisfazer todos os nossos desejos.
Jesus viveu uma vida de abnegação. Quando ele encarnou em humilhação, negou a si mesmo as glórias do céu. Quando obedeceu à Lei, negou a si mesmo os prazeres do pecado. E quando morreu na cruz, negou a si mesmo o direito à autodefesa e a proteção contra a dor. Portanto, quando Jesus chama os seus discípulos à abnegação, ele está nos chamando a imitar o seu exemplo. Como diz Ryken:
“Isso significa dizer não ao pecado, não às atitudes ímpias, não aos relacionamentos prejudiciais, não às aquisições autoindulgentes, não às coisas que desperdiçam nosso tempo e não aos prazeres físicos que minam nossa força espiritual. Significa também dizer não a muitas coisas que são boas em si mesmas, mas que não são a vontade de Deus para nós, pelo menos no momento.”
O que você precisa para negar a si mesmo para seguir Jesus?
B. Um Discípulo Deve dia a dia tomar a cruz (9.23c)
Segundo, um discípulo deve tomar a cruz, assumi-la diariamente. Os judeus conheciam a crucificação romana. Eles viram pessoas carregando cruzes para a própria execução. Tomar a cruz era caminhar para morrer. Você consegue pensar em uma abnegação mais radical? Quando um homem de uma aldeia pegava a cruz e partia com um grupo de soldados romanos, ele tinha uma viagem só de ida. Ele não iria voltar.
Tomar a cruz significa a morte do próprio eu. Há um grande mal-entendido por aí. Algumas pessoas ao enfrentarem dificuldades em relacionamentos, desemprego ou doenças crônicas, dizem: “essa é a cruz que eu tenho que carregar”.
Jesus não estava falando disso. Ele falava de maneira específica sobre tomar a nossa cruz por causa dele, enfrentar dificuldades por termos compromisso com Cristo. Norval Geldenhuys diz:]
Aquele que deseja tornar-se Seu discípulo e servo, deverá todos os dias estar disposto a colocar seus próprios interesses e desejos para um segundo plano e aceitar de todo o coração (não fatalisticamente) o sacrifício e o sofrimento que virão por servir a Jesus. A “cruz” não são os problemas e tristezas humanas comuns, como decepções, doenças, morte, pobreza e coisas semelhantes, mas as coisas que devem ser sofridas, suportadas e abandonadas por causa do serviço de Cristo – difamação, perseguição, egoísmo, sacrifício, sofrimento e até a morte, como resultado de obediência e fé verdadeira a Cristo.
C. Um Discípulo Deve Seguir (9:23d). E terceiro, um discípulo deve seguir. Jesus disse em Lucas 9:23b: “. . . e siga-me.”
Jesus chamou as pessoas para serem discípulos sinceros. Os discípulos de Jesus devem negar a si mesmos, tomar suas cruzes e segui-lo até a cruz. Jesus queria que as pessoas soubessem que se não estivessem dispostas a morrer por ele, então não seriam dignas de serem seus discípulos.
Tornar-se um discípulo de Jesus não é algo que você faz uma única vez no início de sua vida cristã. É um compromisso diário, que precisa acontecer independente dos custos. Quem está disposto a seguir Jesus, está disposto a experimentar sofrimento, rejeição e até morte.
II. A Troca do Discipulado (9.24) Em segundo lugar, observe que a uma troca no discipulado. Jesus diz no v. 24:
24 Pois quem quiser salvar a sua vida a perderá; e quem perder a vida por minha causa, esse a salvará.
Este é um dos grandes paradoxos da vida cristã. Para salvar sua vida, você deve renunciá-la. Ou seja, você deve entregar sua vida a Jesus para que ele possa salvá-la. Essa é a troca do discipulado. Foi esta troca que levou Jim Elliot a fazer a conhecida declaração:
Não é tolo aquele que abre mão do que não pode reter para ganhar o que não pode perder. ...
Elliot foi um dos missionários mortos no Equador pelos índios Aucas em 1956. Elliot sabia do perigo de tentar evangelizar aqueles índios, mas não desistiu de alcançá-los com o evangelho. Elliot orou assim:
“Pai, toma minha vida, sim, meu sangue, se quiseres, e consome-a com Teu fogo envolvente. Eu não a salvaria, pois não cabe a mim salvá-la. Tenha, Senhor, tenha tudo. Derrame minha vida como uma oferta pelo mundo.
A oração de Elliot foi atendida. O seu sangue dele foi derramado como oferta, mas ele não foi um tolo porque ao perder a sua vida por causa de Jesus, ele ganhou algo que nunca poderia perder: o prazer eterno de Deus.
III. A Tragédia de fugir do Discipulado (9:25-27) E terceiro, vejamos a tragédia de fugir do discipulado. Jesus disse no versículo 25:
25 De que adianta uma pessoa ganhar o mundo inteiro, se vier a perder-se ou causar dano a si mesma?
Jesus queria que as pessoas pensassem cuidadosamente sobre as opções. Ele disse que é possível ganhar tudo o que o mundo tem a oferecer: poder, prosperidade e prestígio. Mas isso valeria a pena em comparação com perder a alma?
Esta verdade foi ilustrada 180 anos após a morte de Carlos Magno (chamado de “Pai da Europa”) por volta do ano 1000. Quando oficiais do Imperador Otho abriram o túmulo do rei, encontraram tesouros incríveis e algo assombroso: O esqueleto do rei estava sentado em um trono, com a coroa ainda no crânio. No colo, estava uma cópia dos Evangelhos apontando para esse texto: “Pois que aproveita ao homem se ele ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” J. C. Ryle disse certa vez:
A perda da alma é a perda mais pesada que pode acontecer a um homem. As piores e mais dolorosas doenças – a mais angustiante falência – os mais desastrosos naufrágios – são meros arranhões de alfinete comparados com perder a alma. Todas as outras perdas são suportáveis, ou duram apenas pouco tempo, mas a perda da alma é eterna. É perder Deus, e Cristo, e o céu, e a glória, e a felicidade, por toda a eternidade. É ser lançado para sempre, desamparado e sem esperança no inferno!
Quem sofrerá esta grande perda? Aqueles que se envergonham de Jesus Cristo, como ele disse no versículo 26:
26 Pois quem se envergonhar de mim e das minhas palavras, dele se envergonhará o Filho do Homem, quando vier na sua glória e na glória do Pai e dos santos anjos. 27Em verdade lhes digo que alguns dos que aqui se encontram não passarão pela morte até que vejam o Reino de Deus.
Os comentaristas divergem quanto ao significado exato do que Jesus quis dizer. Tendo em conta a narrativa de Lucas, Jesus pode estar se referindo ao momento da sua transfiguração, mas isso é tema para o próximo sermão.
Conclusão Portanto, vimos neste trecho de Lucas como Jesus define o discipulado. Vimos que precisamos nos dedicar completamente a Cristo, ao discipulado, a caminhar com ele.
Quero deixar claro novamente que os discípulos não conquistam a salvação. Não. Todo discípulo é salvo pela obra perfeita de Jesus, que é recebida somente pela graça, por meio da fé somente em Cristo. Contudo, também é verdade que cada discípulo de Jesus nega a si mesmo, toma diariamente a sua cruz e o segue.
Em 1904, William Borden se formou no segundo grau. Ele já era milionário. Seus pais lhe deram uma viagem ao redor do mundo de presente. À medida que o jovem viajava pelo Terceiro Mundo, ele foi sentido um peso crescente pelas pessoas feridas do mundo. Borden escreveu para casa dizendo: “vou dar minha vida para me preparar para ir para um campo missionário” Ao mesmo tempo, ele escreveu duas palavras no final de sua Bíblia: “Sem reservas”.
Na verdade, Borden não poupou nada. Durante seus anos de faculdade na Universidade de Yale, ele se tornou um pilar na comunidade cristã. Uma anotação em seu diário que definia sua força espiritual dizia: “Diga não a si mesmo e sim a Jesus sempre”.
Já no primeiro semestre na faculdade, ele iniciou um pequeno grupo de oração que transformaria a vida no campus. Esse grupo deu origem a um movimento que se espalhou por todo o campus. No final do seu primeiro ano, 150 calouros se reuniam semanalmente para estudar a Bíblia e orar. No último ano de Borden, 1.000 dos 1.300 estudantes de Yale reuniam-se em tais grupos.
Borden traçou estratégias com seus amigos cristãos para garantir que todos os estudantes no campus ouvissem o evangelho, muitas vezes ministrava para os pobres nas ruas, também. Mas sua verdadeira paixão eram missões.
Depois de entender que seu chamado era para o povo Kansu na China, Borden nunca vacilou. Ao formar em Yale, Borden escreveu mais duas palavras no final de sua Bíblia: “Sem desistências”.
Mantendo esse compromisso, Borden recusou várias ofertas de emprego bem remuneradas, e foi para o seminário. Depois de se formar, ele foi imediatamente para o Egito para aprender árabe para poder trabalhar com os muçulmanos na China. Mas ainda no Egito, ele contraiu meningite. Ele morreu em menos de um mês, aos 25 anos.
Antes de sua morte, Borden escreveu mais duas palavras em sua Bíblia. Abaixo das palavras “Sem reservas” e “Sem desistências”, ele escreveu: “Sem arrependimentos.”
A única forma de não ter arrependimentos, é seguir Jesus como um discípulo que vive sem reservas, que se entrega por completo, e sem desistências. Que seja assim conosco. Amém.