Tiago 1:13-27 - Provações e Tentações: Praticantes da Palavra
02 de outubro de 2023 • 14 min de leitura

Vimos no sermão anterior que Deus é soberano nas provações. Por causa disso, essas provações, nas mãos de um Deus sábio, podem ser fonte de alegria, porque Ele concede sabedoria generosamente para que possamos enfrentar e perseverar em situações difíceis. Mas as provações têm um lado sombrio, e Tiago quer nos proteger de algo aqui. Ele passa a explicar uma segunda grande verdade na passagem de hoje.
Somos os verdadeiros Responsáveis por Nossas Tentações 1:13-15
Deus, em Sua soberania, testará a fé de Seu povo e fará isso para o nosso bem. Ele manda provações para que nossa fé se desenvolva. Esta verdade dura, mas consoladora, pode ser encontrada em todas as Escrituras (ver, por exemplo, Rm 8: 28; Hb 12:5-6).
5 E vocês se esqueceram da exortação que lhes é dirigida, como a filhos: “Filho meu, não despreze a correção que vem do Senhor, nem desanime quando você é repreendido por ele; 6porque o Senhor corrige a quem ama e castiga todo filho a quem aceita.”
Essa verdade prática e teológica, muitas vezes traz consigo perigoso desafio. Nossa mente se permite imaginar um cenário em que o próprio Deus nos tenta e que, portanto, não podemos confiar mais nEle. Esta é uma estrada muito traiçoeira, cheia de desfiladeiros.
Cada provação, cada dificuldade que Deus soberanamente permite em nossas vidas, pode produzir em nós também uma centelha de tentação. Quando enfrentamos dificuldades financeiras, somos tentados a desconfiar da provisão de Deus. Quando alguém querido morre, somos tentados a questionar o amor de Deus. Quando experimentamos sofrimento injusto, somos tentados a impugnar a justiça de Deus.
Mas saiba disto: Deus pode nos provar, mas de acordo com o versículo 13, Ele não nos tenta, não pode fazer isso e não nos tentará de forma alguma. Somos nós mesmos os responsáveis pelas tentações.
A origem do pecado. Para compreender essa questão de nossa responsabilidade quanto à tentação, precisamos compreender qual é a origem do pecado. Tiago diz claramente no versículo 13 que Deus é perfeitamente santo, Ele não pode ser tentado pelo mal. Tudo em Deus resiste ao pecado. O mal é algo inerentemente estranho para Deus. Deus sabe que o mal existe, é ciente dele, mas não é, nem nunca será contaminado por ele.
Dessa forma, não há maneira pela qual Deus pode ser o responsável por nos tentar e pelo pecado que praticamos. Então quem é o responsável? Para responder a essa pergunta, Tiago levanta um espelho e diz:
14 Ao contrário, cada um é tentado pela sua própria cobiça (seus maus desejos), quando esta o atrai e seduz.
Deus é perfeitamente sem pecado, mas nós somos absolutamente pecadores. Depois que Tiago diz que Deus não nos tenta, nós gostaríamos que ele dissesse: “Satanás nos atrai e nos seduz”, mas Tiago não faz isso.
Sabemos que o Diabo é um agente tentador no mundo; isso ficará mais claro mais a frente, no cap. 4:7. No entanto, a responsabilidade pela tentação e pelo pecado recai inteiramente sobre nós, pois são os nossos desejos pecaminosos interiores que nos levam a ceder às tentações. Não temos mais ninguém para culpar pelo nosso pecado.
Que Deus nos ajude a compreender isto num mundo que se esforça para nos dar uma falsa absolvição da responsabilidade do pecado. Nossa tendência é a de procurar alguma desculpa. Para isso, culpamos os outros, nossa família, nossos amigos, nossa educação, nosso governo, nossa condição ou qualquer outra coisa que possamos imaginar. Claro que fatores diferentes, nos afetam de formas diferentes, mas o ensino das Escrituras é claro: a culpa pelo meu pecado é minha. De ninguém mais.
Há um problema no âmago de quem você é e de quem eu sou. Nas palavras de Paulo em Romanos 7:18:
18 Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum, pois o querer o bem está em mim, mas não o realizá-lo.
A anatomia do pecado.
Sim, a origem do pecado, como Jesus ensina, está dentro de nós. Mas como ele se manifesta? Qual é a anatomia do pecado? O pecado não surge do nada, há um processo desencadeado, uma espécie de parto macabro em quatro etapas:
Engano. Gênesis 3 apresenta um exemplo perfeito de como esse processo aconteceu em nossos primeiros pais, Adão e Eva. A essência do pecado é a incredulidade – não acreditar em Deus. Não acreditamos em Deus quando Ele diz que algo é melhor para nós ou que outra coisa seria pior. Ao invés de acreditarmos nEle, nós O questionamos. É aqui que o pecado começa a ser gerado. Vemos isso na pergunta da serpente:
— É verdade que Deus disse: “Não comam do fruto de nenhuma árvore do jardim”?” (Gn 3, 1).
Desejo. Tiago diz que cada um é tentado quando é “atraído e seduzido pela sua própria cobiça” (v. 14). A linguagem aqui carrega a ideia de colocar uma isca no anzol. Nenhum peixe morde conscientemente um anzol vazio. A ideia é que a fisga do anzol fique oculta.
A tentação faz um apelo aos nossos desejos, ela nos atrai, mas esconde o fato que ela irá nos matar. Este tipo de desejo leva os homens à pornografia, que vai tornando a mente mais insensível ao perigo; leva mulheres casadas aos braços de outro homem; leva os empregados à desonestidade, leva as pessoas a toda sorte de pecado.
O pecado se inicia com esses pensamentos desordenados, que desconfiam do caráter bom de Deus, que produzem desejos desordenados e que nos fazem desejar aquilo que irá nos destruir.
Quando somos enganados, seduzidos, surge um desejo, um desejo é concebido em nossa alma, fruto do engano sobre Deus e baseado na cobiça de nossos corações que dá origem ao pecado.
Desobediência. Enganados e com o pecado posto no coração, damos vazão ao nosso desejo. O resultado é o quarto passo: a morte.
Morte. Este é o resultado da desobediência. A imagem da morte é vívida e aterrorizante, e precisamos vê-la conforme o seu horror. Meu Irmão, minha irmã em Cristo, qualquer pecado que você esteja imaginando, qualquer engano que você esteja flertando, se inclinando, qualquer desejo que esteja sendo concebido em seu coração contrário à lei de Deus, fuja disso. Eles vão matar você. E esse tipo de poder destrutivo que habita em nós. Precisamos de Deus.
A benção é que Ele é fiel para nos salvar. (1:16-18)
O que devemos fazer quando estamos enfrentando provações, que por causa do nosso coração pecaminoso, se transmutam em tentações? O que fazer no exato momento em que estamos tão propensos a fixar nossos olhos nas circunstâncias e estamos a beira de abrir mão do que Deus reservou para nós? O que fazer em meio as tentações, quando estamos propensos a ser atraídos e seduzidos pelos desejos que estão dentro de nós?
Precisamos lembrar que Deus é fiel para nós salvar. Em Deus, Tiago nos diz em 1:17, “não há variação ou sombra de mudança”. Em suas provações ou tentações, não acredite nas mentiras. Lembre-se de que Deus é bom, muito bom. E Ele tem pra você o melhor. Portanto, confie Nele em suas provações e volte-se para Ele em suas tentações. Ele é a fonte de tudo que é bom (v. 17).
Vejam estes 3 aspectos da bondade de Deus: imutável, imerecida, infinita.
Bondade imutável. Deus é perpetua, constante e consistentemente bom. Ele não acorda de mau humor. Ele não piora ou melhora. Ele é perfeito. Deus é maravilhosamente bom em todos os sentidos. Se Deus pudesse mudar para melhor, isso significaria que ele não é tão bom. Mas Ele é perfeitamente bom.
Sua bondade é imerecida. O versículo 18 diz:
18 Pois, segundo o seu querer, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como que primícias das suas criaturas.
Deus escolheu nos dar vida pela Palavra da Verdade. Vamos falar muito sobre obras em Tiago, mas o fundamento de tudo é a graça. Deus nos deu nova vida baseado não em nossas obras, mas em Sua graça.
Ele escolheu nos gerar pela Palavra da Verdade! Ele escolheu implantar, escrevê-la em nossos corações profundamente pecaminosos. Este é o evangelho, a mensagem do Cristianismo – qualquer coisa boa que há em você é fruto da bondade imerecida de Deus para com você!
Deus é a fonte de todas as coisas boas em nós. Se não fosse por Ele, tudo em nós seria trevas. Precisamos da Sua bondade imerecida para nos mudar de dentro para fora. Essa é a base da fé em todos os níveis.
Sua bondade é interminável. Somos as “primícias das Suas criaturas” (v. 18). Primícias trazem a ideia de antecipação de algo que está por vir. O que Deus fez em nossas vidas para mudar nossos corações por meio de Sua bondade é apenas uma prévia de quando Ele fará novas todas as coisas em toda a criação. A obra que Ele realizou em nós pela conversão, pelo novo nascimento, um dia se completará em um novo céu e a uma nova terra onde não haverá mais provações, tentações, guerras, lágrimas, pecado ou dor.
Enquanto isso, animem-se. Ele nos salvou do nosso pecado. Se Ele nos salvou dos nossos pecados, então podemos saber, sem sombra de dúvida, que Ele vai cuidar de nós em todas as nossas lutas.
Contemple a verdade deste evangelho, Um Deus que vence o pecado e o sofrimento por meio da morte e ressurreição de Jesus Cristo, para que hoje você e eu possamos considerar as provações com alegria e enfrentar as tentações com confiança inabalável.
Mas essa verdade do Evangelho, que nos dá recursos para enfrentar as provações e as tentações, só será demonstrada em nós se passarmos de meros ouvintes a praticantes. Não podemos supor que acreditamos, se não deixamos a Palavra moldar nossa vida. Como começamos, então, a viver de um modo digno, de acordo com aquilo que afirmamos crer? Leiamos os v. 19-21
19 Vocês sabem estas coisas, meus amados irmãos. Cada um esteja pronto para ouvir, mas seja tardio para falar e tardio para ficar irado. 20Porque a ira humana não produz a justiça de Deus. 21Portanto, deixando toda impureza e acúmulo de maldade, acolham com mansidão a palavra implantada em vocês, a qual é poderosa para salvá-los.
O primeiro passo na caminhada de obediência que revela que de fato cremos consiste em ouvir. Precisamos começar ouvindo a Palavra de Deus para acolhê-la com mansidão, com humildade. Um crente de fato tem o coração desejoso de ouvir. Uma tradução possível seria “apresse-se para ouvir”. Tiago também nos manda calar ou “ser lento para falar”.
Seja humilde ao se aproximar da Palavra, queira ouvi-la. Não fique se defendendo dela, levantando objeções mentais que só produzem ira e resistência contra a Palavra.
Muitas vezes temos a tendência de nos aproximar da Palavra de Deus para falar e não para ouvir. “Ah, eu gostaria que a Bíblia dissesse isso sobre a liderança pastoral feminina, que dissesse isso sobre a ética sexual, que disse aquilo sobre o uso do dinheiro.
Muitas vezes queremos ler a Bíblia para nos justificar. Somos como pessoas tolas que discutem sem ouvir as outras. Que ao invés de ouvir, estão pensando como irão responder.
Não somos rápidos para ouvir e lentos para falar. Muito pelo contrário, detestamos ouvir e estamos ansiosos para vencer discussões. Quer um exemplo: Lucas 12:33, “Venda os seus bens e dê aos pobres”, logo começamos a pensar: “Como vou lidar com esse texto?”
Isso é verdade em toda a história do povo de Deus. Em vez de ouvir, de acolher com mansidão a Palavra de Deus, nós a resistimos. Foi assim com a mensagem dos profetas do AT. Foi assim com as Palavras de Jesus dadas pelo Pai. Foi assim com Paulo nas sinagogas. Foi assim em Listra, quando apedrejaram Paulo instigados por judeus incrédulos (Atos 14:19).
Quando não ouvimos com humildade, logo nos iramos contra Deus. Pessoas iradas param de ouvir. Pessoas iradas começam a acreditar que a sua justiça é melhor que a justiça divina.
Tiago diz aos crentes: “Estejam prontos para ouvir” (v. 19). Então, no versículo 21, ele lhes diz para deixarem “toda impureza e todo acúmulo de maldade”. A palavra traduzida como “deixar” carrega literalmente a ideia de tirar uma roupa, se despir.
A Palavra de Deus contraria e confronta muitos pensamentos mundanos. Ela tem uma lógica literalmente oposta à lógica do mundo! Tiago está dizendo que devemos abandonar essas ideias pecaminosas e egoístas para nos aproximarmos com humildade da Palavra.
Quando olharmos para como Tiago trata a questão dos pobres e como devemos lidar com nossos recursos, seremos tentados a pensar: “Acho que isso é socialismo, não? E agora, como eu me escapo disso?” Então precisaremos lembrar que o objetivo nunca é o de escapar da Palavra. Por que você iria querer contornar a sabedoria de Deus?
Mas a parte final do v. 21 nos dá uma excelente notícia. A Palavra foi implantada em mim e em você, que cremos. Essa ideia de uma palavra implantada é uma promessa que foi dada por intermédio de Jeremias, no cap. 31. O profeta falou para um povo que vivia em desobediência contra a Palavra de Deus. Eles não conseguiam cumpri-la. Mas Jeremias lhes dá a promessa de uma nova aliança.
31— Eis aí vêm dias, diz o Senhor, em que firmarei nova aliança com a casa de Israel e com a casa de Judá. 32Não segundo a aliança que fiz com os seus pais, no dia em que os tomei pela mão, para os tirar da terra do Egito; pois eles quebraram a minha aliança, apesar de eu ter sido seu esposo, diz o Senhor. 33Porque esta é a aliança que farei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz o Senhor: Na mente lhes imprimirei as minhas leis, também no seu coração as inscreverei; eu serei o Deus deles, e eles serão o meu povo. (Jr 31:31-33)
A promessa dizia que Deus iria escrever Sua lei nos corações de Seu povo, ou implantá-la nos corações para usar a linguagem de Tiago. Ezequiel 36:24-27 diz a mesma coisa com belas imagens:
24 Eu os tirarei do meio das nações, eu os congregarei de todos os países e os trarei de volta para a sua própria terra. 25Então aspergirei água pura sobre vocês, e vocês ficarão purificados. Eu os purificarei de todas as suas impurezas e de todos os seus ídolos. 26Eu lhes darei um coração novo e porei dentro de vocês um espírito novo. Tirarei de vocês o coração de pedra e lhes darei um coração de carne. 27Porei dentro de vocês o meu Espírito e farei com que andem nos meus estatutos, guardem e observem os meus juízos.
Conforme Jeremias, Deus imprime Sua lei em nossos corações. Conforme Ezequiel, Deus coloca Seu Espírito em nossos corações. É o Espírito de Deus, por intermédio da Palavra de Deus que nos move.
Esta é a linguagem de Tiago 1 (18,21). Deus implantou Sua Palavra em nós e nossos corações encontram vida nesta Palavra. Tal como o sangue precisa chegar no coração, assim precisamos da Palavra de Deus. Que Deus nos ajude, pois precisamos desta Palavra que é capaz de nos salvar. A linguagem aqui é poderosa, enfatizando que não somos salvos por obras, mas por acolher a Palavra, crer nela. É essa Palavra implantada em nós, que nos leva à ação, às obras.
Este é o coração da carta de Tiago. Trabalhamos e colocamos nossa fé em ação, sim, mas fazemos isso pela Palavra operando em nossos corações, a Palavra que nos deu vida (v. 18).
Ao acolher esta Palavra e se submeter humildemente a ela, sua alma experimentará as profundezas da salvação. Não subestime o poder e a importância da Palavra de Deus.
Você quer essa Palavra em seu coração? Se você fizer isso, isso será vida. Ela deve ser um bem precioso e querido para você. Se não deseja, então livre-se da sujeira, do mal e do mundanismo que estão atraindo sua alma para longe da Palavra que pode te salvar. Acolhe com mansidão, com humildade esta Palavra. Arrependa-se e creia.
Bem-aventurado é aquele que suporta com perseverança a provação. Porque, depois de ter sido aprovado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor prometeu aos que o amam.13Ninguém, ao ser tentado, diga: “Sou tentado por Deus.” Porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo não tenta ninguém. 14Ao contrário, cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz. 15Então a cobiça, depois de haver concebido, dá à lu’z o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte. 16Não se enganem, meus amados irmãos.
17 Toda boa dádiva e todo dom perfeito vêm lá do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não pode existir variação ou sombra de mudança. 18Pois, segundo o seu querer, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como que primícias das suas criaturas.
19 Vocês sabem estas coisas, meus amados irmãos. Cada um esteja pronto para ouvir, mas seja tardio para falar e tardio para ficar irado. 20Porque a ira humana não produz a justiça de Deus. 21Portanto, deixando toda impureza e acúmulo de maldade, acolham com mansidão a palavra implantada em vocês, a qual é poderosa para salvá-los.