Tiago 2:1-13 - A Fé que Não Discrimina: O Perigo da Parcialidade
21 de outubro de 2023 • 14 min de leitura

Quando pensamos nos atributos de Deus, pensamos que Ele é amor, graça, misericórdia, justiça, onipotência, onisciência, onipresença, santidade, ira justa. Um dos atributos pouco listados é o atributo da imparcialidade.
Contudo, a Bíblia é insistente quanto a imparcialidade de Deus. A imparcialidade divina está relacionada com a ideia de que Deus não trata pessoas melhor do que outras por favoritismo. Vejamos alguns exemplos:
DT 10:17: 7Pois o Senhor, o Deus de vocês, é o Deus dos deuses e o Senhor dos senhores, o Deus grande, poderoso e temível, que não trata as pessoas com parcialidade, nem aceita suborno.
Atos 10:34-35 34Então Pedro começou a falar. Ele disse: — Reconheço por verdade que Deus não trata as pessoas com parcialidade; 35pelo contrário, em qualquer nação, aquele que o teme e faz o que é justo lhe é aceitável.
Rm 2:19-11 Tribulação e angústia virão sobre todo aquele que faz o mal, ao judeu primeiro e também ao grego; 10mas haverá glória, honra e paz a todo aquele que pratica o bem, ao judeu primeiro e também ao grego. 11Porque Deus não trata as pessoas com parcialidade.
Esses textos proclamam a imparcialidade de Deus. Há, muitos em que Deus proíbe que ajamos com parcialidade:
Lv. 19:15 15— Não seja injusto ao julgar uma causa, nem favorecendo o pobre, nem agradando o rico; julgue o seu próximo com justiça.
Pv: 28:21 21Parcialidade não é bom, porque uma pessoa é capaz de transgredir até por um bocado de pão.
Sl. 82:2 2“Até quando julgarão injustamente e tomarão partido pela causa dos ímpios?
1 Tm 5:21 21Diante de Deus, de Cristo Jesus e dos anjos eleitos, peço com insistência que você guarde estes conselhos, sem discriminação, nada fazendo com espírito de parcialidade.
Essa pequena amostra prova que a questão da imparcialidade é biblicamente relevante. Tiago também pensa sobre isso. O texto começa com a expressão: “meus irmãos”. Tiago está escrevendo para pessoas que ele considera cristãs.
Tiago tem um tema geral: integridade. Quem afirma crer deve provar o que diz com uma vida que demonstra um padrão visível de obediência. No Domingo passado fomos lembrados que não devemos ser apenas ouvintes, mas praticantes, cuidando dos órfãos e das viúvas, buscando a santidade, controlando a língua.
Falar, apenas, é fácil. Tiago defende a ideia de que uma vida transformada dá evidências no dia a dia. Tiago se volta agora para a questão da parcialidade. Não podemos distinguir pessoas pela aparência, ascendência, idade ou riquezas. Mas ser parcial é tão ruim assim? Como devemos encarar e lutar contra esse pecado?
1 Meus irmãos, vocês não podem ter fé em nosso Senhor Jesus Cristo, o Senhor da glória, e ao mesmo tempo tratar as pessoas com parcialidade.
A palavra traduzida como “parcialidade” significa literalmente erguer o face de alguém. Esta palavra carrega a ideia de conceder privilégios a alguém por sua aparência em detrimento de outros.
Só há registros dessa palavra em grego antigo em textos cristãos. Provavelmente, a cultura daquela época considerava a parcialidade como apenas um fato consumado. Parece que nossa cultura também do mesmo problema.
O padrão bíblico de imparcialidade é o Senhor Jesus Cristo.
Jesus não tratou ninguém com parcialidade por causa da aparência ou da posição social. Para ele não interessava se seu interlocutor era um líder rico ou um mendigo. Não importava para Cristo conversar com um homem de moral elevada ou com uma prostituta. Ele não era parcial.
Jesus tratou com justiça gente bem-vestida e maltrapilhos. Ele não distinguiu entre o Sumo Sacerdote e o adorador comum. Ele se preocupou com a alma de todos, não com a aparência ou com a posição social. Lembram da mulher samaritana de João 4? Ela pertencia a um grupo odiado pelos judeus, teve diversos relacionamentos disfuncionais, era uma pessoa marginalizada. Mas Jesus a tratou como uma pessoa digna.
Olhe para o ministério de Jesus e você verá o Homem Deus mais preocupado com os corações dos pecadores que se abriam para ele do que com a opinião da plateia. Jesus tratava as pessoas com base no que elas poderiam se tornar, não no que eram.
Ele foi chamado de “amigo dos pecadores”, como uma crítica, mas era uma descrição correta de quem Ele era de verdade. Jesus não estendeu a mão apenas para os pobres, mas também para ricos como Zaqueu. Jesus compartilhou o evangelho com Nicodemos, um respeitado mestre, membro do Sinédrio.
Jesus realmente se preocupava com pessoas. Ele se preocupou e curou o cego mendigo, Bartimeu. Ele expulsou demônios de um menino e de um homem que vagava pelas tumbas. Ele amou o jovem rico e se entristeceu por ele ter amado mais as riquezas do que o convite para ser discípulo.
Ninguém foi privado da companhia de Jesus por causa de aparência, da origem ou da estabilidade mental. Ricos, pobres, marginalizados, poderosos, jovens, velhos, judeus, samaritanos, siro-fenícios, saudáveis, doentes, leprosos e doutores da lei descobriram que eram alvo do Senhor da Glória que se aproximou deles como eles se encontravam. Lembram de como os inimigos descreveram Jesus?
MT 22: 16b: — Mestre, sabemos que o senhor é verdadeiro e que ensina o caminho de Deus de acordo com a verdade, sem se importar com a opinião dos outros, porque não olha para a aparência das pessoas.
Essa mesma imparcialidade de Jesus deve ser encontrada nos discípulos de Jesus. Tiago ensina isso com um estudo de caso:
2 Porque, se entrar na sinagoga de vocês um homem com anéis de ouro nos dedos, vestindo roupa luxuosa, e entrar também um pobre muito malvestido, 3e vocês derem um tratamento especial ao que está vestido com a roupa luxuosa, dizendo: “Você, sente-se aqui no lugar de honra”, e disserem ao pobre: “Você, fique em pé” ou “Sente-se ali, abaixo do estrado dos meus pés”, 4será que vocês não estarão fazendo distinção entre vocês mesmos e julgando as pessoas com critérios errados?
A maioria dos cristãos do início da igreja era composta de judeus pobres. Isso nos ajuda a entender o estudo de caso escolhido por Tiago. Imagine o cenário: O local de reunião da igreja estava bem cheio e dois homens chegam. O pessoal da recepção avalia os dois pela aparência. O rico com anéis de ouro, no plural, e uma roupa cara, quem sabe feita sob medida com púrpura persa? O pessoal da recepção deu mais atenção aos anéis de ouro do que ao Senhor do ouro e da prata. Eles deram ao um lugar de honra.
Por sua vez, o pobre não tinha muito em seu favor. Ele estava muito malvestido. Em algumas traduções dizem roupas sujas, andrajosas, sórdidas vestimentas. Ele provavelmente cheirava mal e isso causava repugnância. O pessoal da recepção disse para ele: “vá para o canto e sente-se no chão”.
O estudo de caso de Tiago não é nada sútil. A discriminação racial nos EUA também não era nada sutil, há quarenta ou cinquenta anos. Quando uma pessoa preta tentava visitar uma igreja composta por brancos, era comum que os recepcionistas indicassem onde ficavam as Black churchs. Eles diziam: vá para tal igreja... lá você ficará mais confortável.
Talvez nossa parcialidade seja mais sútil do que essa. Falamos e cumprimentamos as pessoas que sabemos que são pobres, mas não nos sentamos perto delas, nem as convidamos para fazer algo depois do culto. Muitas igrejas são projetadas para atrair gente rica. Prédios são projetadas para atrair e manter determinados pessoas.
No início de sua vida, Gandhi sentiu certa atração pelo cristianismo, mas ele foi barrado ao tentar entrar em uma igreja. O recepcionista o impediu e disse que aquela igreja era apenas para europeus. Nas suas memórias, ele escreveu que se o cristianismo tinha um sistema de castas, era melhor permanecer hindu. Ghandi foi marcado pelo antievangelho do pecado da parcialidade.
O movimento do crescimento da igreja afirma que igrejas crescem mais rápido quando atendem o princípio das unidades homogêneas. Por esse princípio, uma igreja cresceria mais rápido quando focasse em atrair pessoas parecidas com o perfil da igreja. Os líderes do movimento não defendiam a ideia como sendo correta, mas como sendo a mais efetiva.
A igreja redimida pelo Evangelho aponta para algo diferente. A igreja de Jesus é heterogênea, não homogênea. Nosso coração deve ser imparcial. Devemos pregar o evangelho para qualquer perdido porque o inferno é democrático. Se o inferno escancara sua boca para engolir qualquer pessoa, o anúnico do evangelho não pode ser seletivo.
Queremos ter uma igreja intergeracional. Nossa igreja será mais bonita com gente de cor diferente e de nacionalidades diferentes. Quanto mais diversos formos, mais parecidos com o Céu já seremos a partir daqui. Gente de toda tribo, língua e raça. Estamos em Brasília, tem uma área para embaixadas perto de nós. Esse pessoal aluga casas perto de nós. Podemos alcançá-los e, a partir deles, outras nações.
Sei que temos desafios por causa de nossa localização. As pessoas só chegam aqui de carro. Se chega caminhando, é porque mora num condomínio pertinho daqui. Mas pobres e ricos devem se sentir amados aqui. Nossos pequenos grupos serão melhores com o zelador e o síndico cultuando juntos.
Que tal uma ex-prostituta num grupo de discipulado com mulheres que aceitaram Jesus aos 7 anos de idade? Por que não ex-presidiários convertidos sentado ao lado dos policiais louvando ao Senhor que salvou ambos?
Que os doutores em sociologia e de marketing fiquem espantados com uma igreja ilógica. Uma igreja que cresce em diversidade. Que não haja outra explicação possível para uma igreja tão diversa, quanto a ação de Deus em nosso meio.
III. A Contradição da Parcialidade (V5-7)
A parcialidade em favor de pobres ou em favor de ricos é pecaminosa. Mas sabemos que a parcialidade em favor dos ricos é mais comum. Isso revela uma grande contradição e ignorância sobre a ação de Deus no mundo.
Ser parcial em favor dos ricos é ignorar o que Deus está fazendo no mundo. O evangelho cresce nas regiões pobres do mundo. África, América Central e do Sul e Ásia apresentam crescimento, enquanto os Países ricos estão declinando.
Desprezar o pobre é demonstrar que não temos sintonia com o que Deus está fazendo no mundo. Deus está enriquecendo os pobres com a beleza do evangelho, fazendo dos pobres herdeiros de Deus e coerdeiros de Cristo. Você já viu a alegria de uma igreja africana? Como eles louvam? Gente que vive em extrema pobreza é inundada com uma alegria e com bençãos maravilhosas. Essa mesma alegria é encontrada em igrejas de periferia perto de nós.
Por que agir com parcialidade contra aqueles que Deus está abençoando? Jesus já advertiu que ricos dificilmente entram no Reino dos Céus. Eles confiam nas suas posses. Os pobres parecem ter mais facilidade em confiar que Jesus é tudo o que eles precisam. Quem se acha rico, deveria olhar com mais atenção para a fé de pessoas pobres. Os ricos deveriam desejar passar tempo com pobres que aprenderam a confiam em Deus para aprender sobre dependência de Deus.
Cristo tem uma ótica diferente para quem confia em si mesmo. Parece que Cristo inverte o nosso status no mundo. Lucas 1:51-53:
51 Agiu com o seu braço valorosamente; dispersou os que, no coração, alimentavam pensamentos soberbos. 52Derrubou dos seus tronos os poderosos e exaltou os humildes. 53Encheu de bens os famintos e despediu vazios os ricos.
Talvez a passagem mais clara sobre como Deus inverte essa lógica do mundo está em 1 Coríntios 1:26-29
26 Irmãos, considerem a vocação de vocês. Não foram chamados muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de nobre nascimento. 27Pelo contrário, Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes. 28E Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são, 29a fim de que ninguém se glorie na presença de Deus.
Em Tiago 2:6-7, Tiago declara um fato de sua época que muitas vezes se aplica ao nosso tempo. Os ricos exploram os pobres. Gente que retem o salário da doméstica, mas anda de carrão. Gente que enriquece cobrando juros escorchantes de pessoas que ganham muito pouco. É ilógico, mas comum, desprezar o pobre e puxar saco de rico. Isso é muito tolo. O problema de hoje é o mesmo da época de Tiago. Ricos tendem a oprimir pobres. Qual o sentido de pobres desprezarem outros pobres?
5 Escutem, meus amados irmãos. Por acaso Deus não escolheu os que para o mundo são pobres para serem ricos em fé e herdeiros do Reino que ele prometeu aos que o amam? 6No entanto, vocês desprezam os pobres. Por acaso não são os ricos que oprimem vocês e não são eles que os arrastam para os tribunais? 7Não são eles os que blasfemam o bom nome que foi invocado sobre vocês?
Mostrar parcialidade nessa relação entre ricos e pobres contradiz os planos e os caminhos de Deus. Quais são as consequências disso?
4. As consequências da parcialidade (V8-11).
Ser parcial não entra em contradição apenas com a ação de Deus no mundo. ela contradiz também a realeza de Deus.
8 Se vocês, de fato, observam a lei do Reino, conforme está na Escritura: “Ame o seu próximo como a si mesmo”, fazem bem. 9Se, no entanto, vocês tratam as pessoas com parcialidade, cometem pecado, sendo condenados pela lei como transgressores. 10Pois quem guarda toda a lei, mas tropeça em um só ponto, se torna culpado de todos. 11Porque, aquele que disse: “Não cometa adultério”, também ordenou: “Não mate.” Ora, se você não comete adultério, porém mata, acaba sendo transgressor da lei.
Tiago aponta para o fato de que a lei é a Lei do Reino. Jesus afirma que esse mandamento, é o segundo maior mandamento, logo abaixo do dever que temos de Amar a Deus com toda nosso coração, alma, mente e força.
A lei do Reino, a Lei Real, é amar o próximo como a si mesmo. Se você acha que ama o próximo, mas age com parcialidade, você se engana. Falhar na imparcialidade é pecar e estar sujeito à condenação como um transgressor.
Tiago, no v. 10, aplica o princípio do “tudo ou nada” para a lei moral de Deus. Você quer viver sob a lei? Então cumpra ela integralmente do nascer até o morrer para que você possa ser justo aos olhos de Deus. Tiago está criando o fundamento para os v. 12-13 aqui. Tiago está afirmando que se o único pecado que você cometeu for o da imparcialidade, já seria justo você ser condenado pela lei.
Ser parcial quebra o décimo mandamento pois revela que cobiçamos o que o rico pode nos oferecer. Ser parcial quebra o oitavo mandamento porque priva o pobre, rouba do pobre, a dignidade que ele tem por ter sido criado a imagem de Deus.
Aqui está a grande tragédia bíblica: se você quebrar um único mandamento, você é um infrator da lei. Apenas a misericórdia de Deus por intermédio da graça mediante a fé em Cristo pode te salvar.
Deus não avalia por média. Seu critério é aprovado ou reprovado. Não tem nota 5. Quebrar a lei uma única vez te faz um pecador reprovado que não conseguiu produzir a própria justiça.
Moody comparou a lei de Deus a uma corrente com 10 elos que mantem um homem suspenso sobre um precipício. Se todos os elos romperem, ele cai. Se forem só 5, ele cai. Se for um só, ele vai cair.
Tiago diz que tropeçar em um só ponto é se tornar culpado de todos. O V. 11 diz a mesma coisa com outras palavras. Não adianta seu orgulho de ter guardado uma parte da lei, se você falhou em outra. Sem Cristo, você será condenado como transgressor da lei.
Assim como o adultério ou o homicídio, nossa parcialidade nos condena, não importa quantos outros mandamentos de Deus guardemos. A parcialidade será julgada. Como se livrar disso? Vejamos os v. finais, 12-13.
V. O vindouro julgamento de parcialidade (V12-13)
12 Assim, falem e vivam como pessoas que serão julgadas pela lei da liberdade. 13Porque o juízo é sem misericórdia sobre quem não usou de misericórdia. A misericórdia triunfa sobre o juízo.
Tiago está escrevendo principalmente para cristãos, embora seus alertas sirvam para aqueles que se iludem pensando que são. Para entender esses dois versículos precisamos entender o que é “lei da liberdade” e o que Tiago entende por juízo.
A Lei da liberdade é o evangelho. É a fé no Cristo que suportou a ira de Deus como substituição pelos nossos pecados. pelos nossos pecados. O evangelho liberta. Se ele nos libertou, então devemos falar e viver como pessoas libertas. Devemos viver como crentes verdadeiros. Esse é o tema Tiago: Fé verdadeira produz mudança.
No v 13, Tiago está dizendo que quem não é misericordioso é ainda um incrédulo e, portanto, será julgado pelos seus pecados, incluindo sua parcialidade. Mas aquele que recebeu misericórdia, deve mostrar misericórdia como prova de ter sido alvo da misericórdia divina. Quem recebeu misericórdia triunfa sobre o julgamento. Não há condenação para aqueles que estão em Cristo Jesus. Romanos 8:1a
Não minimize o pecado da parcialidade. Ele é totalmente contraditório com uma vida que recebeu a graça do evangelho. Saiba, você que ainda não crê, apenas este único pecado é suficiente para condenar você, da mesma forma como se você fosse um adúltero ou assassino.